O PASSAGEIRO DA AGONIA


Indicado a seis Oscars, mas proibido para pessoas muito sensíveis. Esse é o apelo de 127 Horas, que chega por aqui depois de causar desmaios, vômitos e até um ataque epilético mundo afora. Tudo por causa de uma cena extremamente forte e realista, que obrigou o próprio diretor a pedir desculpas para o público após as primeiras exibições.

Estrelado pelo valorizado James Franco, o filme combina aventura, drama e suspense para narrar a história real do americano Aron Ralston. Em 2003, ele trabalhava como engenheiro e passava o tempo livre explorando montanhas e cânions. Até que, durante um passeio solitário, caiu numa fenda e ficou com o braço preso numa rocha.

Ralston lutou pela sobrevivência ao longo de quase cinco dias. Ferido e praticamente sem suprimentos, bebeu água da chuva e a própria urina. Um verdadeiro martírio, pontuado por lembranças do passado, devaneios e alguns momentos de autoironia – registrados por ele com uma câmera digital.

Sete anos depois, o cineasta Danny Boyle tenta transformar essa jornada numa experiência de imersão para o espectador. E consegue. São 95 minutos de pura tensão, “arejados” apenas pela conhecida agilidade de sua direção (marcada por câmeras de mão, cortes rápidos, uso esperto da trilha sonora).

Mais do que isso, é melhor não revelar. Afinal, a história de Ralston não é muito conhecida no Brasil, o que pode garantir uma surpresa ao fim da sessão. De qualquer forma, fica o aviso: se você não aguenta ver o sofrimento alheio (como eu), evite 127 Horas. Ou então prepare o estômago e feche os olhos quando o bicho pegar (como eu).

PS – Pirando depois da cabine, brinquei que o filme é uma mistura de A Praia, Na Natureza Selvagem, Bruxa de Blair e Jogos Mortais. Assiste e depois me diz se não faz sentido.

CABEÇA COM CABEÇA


Cabeça com cabeça. O aspecto essencial desse sinal-vínculo é o modo como incapacita o casal a executar outras atividades.

Tocando-se mutuamente com a cabeça ou sentando-se de rosto colado, eles estão efetivamente dizendo: "Para nós é mais importante nos tocarmos do que estar alerta para fatos exteriores".

Esta é uma ação excludente, que separa o par do resto de nós.


Extraído da obra de Desmond Morris.

SOU O PÚBLICO-ALVO


Sou o público-alvo de Sentimento de Culpa. Uma daquelas produções americanas pequenas, baratas, curtas, sobre os problemas de gente comum... Parafraseando o supracitado filósofo Álvaro Garnero: esse, sim, é o meu cinema!

Roteirista de mão cheia, Nicole Holofcener (já disse que me amarro em mulheres cineastas) faz aqui um recorte na vidinha de seis personagens totalmente reconhecíveis. E, mesmo sendo apenas regular na direção, consegue prender o espectador sem apelar para viradas mirabolantes ou momentos climáticos.

É o típico filme em que "nada acontece", alguém vai dizer. Mas só na superfície. Como quem não quer nada, Nicole nos coloca diante de temas como família, hipocrisia, casamento, solidão, doação e, claro, culpa. Impossível não se identificar.

Destaque também para o elenco. Principalmente a dupla Oliver Platt e Catherine Keener (eternos de coadjuvantes de luxo em Hollywood) e a incrível Rebeca Hall (de Vicky Cristina Barcelona).

Um único porém: a trilha sonora folk pau mole - uma verdadeira obsessão do cinema independente americano.

ENTREVISTA: ALVINHO LANCELLOTTI (FINO COLETIVO)


Também publicada em papel-jornal.

A NOVA CADÊNCIA DO SAMBA

Antídoto contra o som "de raiz", Fino Coletivo é a pedida de hoje na programação de Curitiba

Nos últimos anos, a revalorização do samba de raiz fez surgir uma infinidade de novos entusiastas do gênero. São jovens tão afeitos à tradição que, não contentes em emular canções de outros carnavais, adotam até um figurino de época, com direito a roupinhas de fazenda, cordões de ouro e chapéus-panamá.

Mas a música brasileira sempre nos oferece antídotos contra a mesmice. É o caso do grupo Fino Coletivo, formado por cariocas e alagoanos, que toca hoje em Curitiba, no Music Hall. Com dois discos no currículo, o sexteto abraça o samba e o atualiza, adicionando elementos de funk, reggae, rock e hip hop.

"Como o samba andou meio esquecido no Rio por um tempo, foi importante esse movimento de resgate ter aparecido. Só que eu, particularmente, não quero reproduzir o que já foi feito. É uma coisa meio boba", afirma o vocalista Alvinho Lancellotti, em entrevista à reportagem da FOLHA.

Filho do compositor de sambas Ivor Lancellotti (e irmão do músico Domenico), ele reconhece que tinha tudo para integrar a turma "de raiz". "Cresci vendo o João Nogueira cantar na minha frente. Mas também sou fã de Michael Jackson, pô! Acho estranho um cara de 27, 30 anos usando chapéu na rua", diz.

Outro integrante da banda com DNA musical é o tecladista Donatinho, herdeiro do genial João Donato. Segundo Alvinho, sua entrada na banda, após o primeiro álbum (de 2007), foi fundamental para definir a sonoridade atual do Fino Coletivo - caracterizada por timbres personalíssimos.

Copacabana, o registro do ano passado, também é marcado por um forte apelo pop. Além das composições leves e diretas, o material traz uma certa limpeza técnica. "Gravamos tudo no estúdio novo do baixista. As vozes estão melhores, o som chega mais no ouvinte", explica o vocalista.

Essa lapidação chamou a atenção do selo Oi Música, mantido por uma operadora de telefonia móvel. Responsável pelo lançamento do último disco, a companhia vende downloads das faixas para celular e divulga o Fino Coletivo nas redes sociais da internet, por meio de sua assessoria de imprensa.

"Essa parceria caiu do céu. Estávamos com o disco quase pronto e não sabíamos o que fazer com ele. As próprias gravadoras não sabem mais", conta o músico, que garante não receber interferência artística da companhia. "É tão difícil viver de música no Brasil, que qualquer oportunidade dessas é válida".

PS - Shows de abertura com os locais Supercolor e Locomotiva Duben.

CARAVANA DA CORAGEM


Nunca tive muito saco para atores-mirins. Mas essa menina de Bravura Indômita, sozinha, já valeria a sessão. Hailee Steinfeld é o nome da figurinha, que mal estreou no cinema e concorre ao Oscar de coadjuvante. Olho nela.

Sobre o filme em si, trata-se de mais um western dos Coen. Digo "mais um" porque, convenhamos, o ótimo Onde os Fracos Não Têm Vez é quase um bang-bang, né? A diferença é que, aqui, a história se passa mesmo no Velho Oeste. Com direito a visual caprichado e direção de arte que aproxima o espectador da época.

O roteiro, mais baseado no livro do que no longa de 1969, segue a linha "fábula moral", tão comum na obra dos irmãos cineastas. No caso, uma fábula sobre a coragem. Coragem para fazer o que deve ser feito, para levar até o fim o que se começou. O que torna este Bravura um dos trabalhos mais "emocionais" dos irmãos cineastas.

E também o filme mais convencional e acessível deles, narrativamente falando. Não à toa, já faturou US$ 90 milhões só nos EUA (um feito e tanto para um faroeste em pleno 2011). Isso não significa, pelamordedeus, que é ruim. Pelo contrário. Só não rivaliza com classicões como Lebowski, Onde os Fracos, O Homem que Não Estava Lá, etc.

PS - O Jeff Bridges está apenas correto. Não justifica a segunda indicação seguida.

PA-PANAMERICANO!


Matéria que produzi para a Fôia no início do verão. A ilustra é do Marco Jacobsen.

PA-PANAMERICANO!

Conheça as músicas mais tocadas (ou massacradas) nos balneários paranaenses

Todos os anos, uma das principais reclamações dos veranistas é o som alto. Tanto que o Instituto Ambiental do Paraná (IAP) destacou três equipes só para fiscalizar os bares e restaurantes do litoral. Segundo o órgão, mais de dez comerciantes foram multados desde o início oficial da temporada, no fim de dezembro.

No entanto, é praticamente impossível controlar o barulho vindo dos carros equipados com autofalantes no estilo "panelão". Para os donos desses mini trios elétricos, não basta gostar de uma música. É preciso massacrá-la no último volume para todo mundo ouvir. E dá-lhe axé, pagode, sertanejo universtário, tecno e funk - porque a trilha sonora da praia nunca é suave.

Mas antes de chamar a polícia para silenciar seu vizinho, talvez seja interessante conhecer os sucessos da vez nos balneários paranaenses. Para se inteirar do assunto, a reportagem da FOLHA conversou com DJs, programadores de rádio e promotores de eventos que estão trabalhando na praia. O resultado da enquete é algo próximo de um hit parade do litoral.

No topo da lista, uma unanimidade: "Pa-Panamericano". Pelo menos é assim que 99,9% dos consultados se referem à faixa "We Speak Americano", da dupla australiana Yolanda Be Cool. Popularizada no Brasil pelo programa Pânico na TV, a música é uma releitura eletrônica - e grudentíssima - de um clássico latino de 1956, gravado originalmente por Renato Carosone.

O vice-campeonato ficou com uma típica canção popular de duplo sentido. Composta pelos pagodeiros Thiaguinho (do supergrupo Exaltasamba) e Rodriguinho (ex-Travessos), "Fugidinha" ganhou as ruas na voz do neosertanejo Michael Teló e foi parar até no especial de tevê de Roberto Carlos. Em pleno horário nobre da Globo, o Rei mandou uma versão mais tranquila do hit, acompanhado do já citado Exaltasamba.

Quem também subiu no pódio foi "Stereolove", também conhecida como "o poperô da sanfoninha". Trata-se de uma faixa do produtor romeno Edward Maya, cantada pela russa Vika Jigulina. Estourada no leste europeu desde 2009, a música pegou no Brasil em 2010 e já se firma como um dos grandes hits deste verão. Está feita a (improvável) conexão Bucareste-Matinhos.

O ranking prossegue com outra pérola popular brasileira - porém sem o menor vestígio de duplo sentido. "Saia e Bicicletinha", da banda mineira Kaçamba, é um axé com som de sirene ao fundo e refrão desavergonhado ("Ela sai de saia e bicicletinha / Uma mão vai no guidão e a outra tapa a calcinha"). Ideal para quem gosta de seguir uma coreografia semierótica.

Menos apelativos, os paulistas do Exaltasamba (olha eles aí de novo!) também estão bombando na praia. Além de fazer sucesso com sua gravação de "Fugidinha", o U2 do pagode ainda emplacou "Tá Vendo Aquela Lua". Na quinta posição, a composição romântica de Thiaguinho (dessa vez em parceria com Pezinho) tem os ingredientes necessários para uma conquista amorosa à beira mar.

A última representante internacional do nosso Top 10 é "The Time (Dirty Bit)", do fenômeno pop Black Eyed Peas. Aqui, o quarteto americano transforma em dance music o clássico dos anos 80 "(I've Had) The Time of My Love". A versão original, tema do filme Dirty Dacing - Ritmo Quente, foi gravada por Bill Medley e venceu o Oscar de canção original em 1987.

Daqui em diante, a lista é quase toda tomada pelo gênero musical hegemônico do estado: o sertanejo universitário. E tome Luan Santana ("Adrenalina"), Guilherme & Santiago ("E daí?") e Fernando & Sorocaba ("Tô Passando Mal"). É a trilha sonora dos bailões litorâneos.

O hit parade do verão paranaense 2011 termina, surpreendentemente, com um sucesso da temporada passada. Segundo os entrevistados pela reportagem, "Rebolation", do grupo baiano Parangolé, continua viva na memória do público e deve continuar assim até depois do Carnaval. Agora, sim, pode chamar a polícia.

PS - Depois de que a matéria ficou pronta, outros hits surgiram, ok? Ou seja: não exija rigor dessa lista.

NÃO SOU O PÚBLICO-ALVO


Os três leitores deste blog talvez não se enquadrem no público-alvo de O Discurso do Rei. Nem eu, para falar a real.

Mas senti que o pessoal mais "maduro" (no sentido cronológico mesmo) presente na pré-estreia curtiu bastante. O que reforça o contraponto com A Rede Social, apontado como seu maior rival no Oscar 2011.

Trata-se do típico "filmão inglês" de época. Acadêmico, tecnicamente impecável, com personagens nobres (no caso, o protagonista é o próprio monarca) e referências a Shakespeare. Um prato cheio para quem curte o gênero.

Da minha parte, valeu a pena pelo desempenho de gente grande da dupla Colin Firth e Geoffrey Rush. Principalmente do primeiro, com quem nunca simpatizei muito - até aqui.

Sempre lembrando, como já disse no tuíter, que a Academia é formada, basicamente, por votantes "maduros". Não se espante, portanto, se este aqui passar o rodo nas estatuetas.

ALÔCKA DO BALÉ!


Atenção: Cisne Negro não é sobre o mundo do balé. Ou pelo menos não trata apenas disso, como sugerem os comerciais de tevê. Indicado a seis Oscars, o filme do diretor Darren Aronofsky é um suspense psicológico para adultos, com altas doses de tensão e sensualidade.

A história é centrada na figura de Nina (Natalie Portman), uma bailarina profissional extremamente comprometida com sua companhia. Comprometida até demais. Aos 28 anos, mora com a mãe superprotetora (Barbara Hershey) e se limita a viver entre o teatro e sua casa.

Quando o grupo se prepara para encenar uma nova versão de O Lago dos Cisnes, e a dançarina principal é forçada a se aposentar, ela agarra com unhas e dentes a oportunidade de ganhar o papel principal. Um desafio e tanto, já que a adaptação prevê que a estrela do espetáculo interprete dois personagens - o Cisne Branco e o Negro.

Enquanto encarna o primeiro, Nina é incrível. Afinal, sua personalidade ingênua e frágil combina perfeitamente com a coreografia. A difilcudade surge na hora de dançar as partes do Cisne Negro - perverso, agressivo, lânguido. Instigada pelo autoritário diretor da companhia (Vincent Cassel, o eterno francês escrotão), ela terá de descobrir sua faceta libertária.

Exigida por todos, principalmente por si mesma, a personagem se desestabiliza e inicia uma jornada delirante, marcada por alucinações assustadoras (algumas involuntariamente cômicas, diga-se). A partir daí, fica difícil saber o que é ficção e realidade na trama, que ganha tintas expressionistas e um clima tenso digno dos filmes de Roman Polanski e David Cronenberg.

O problema é que, apesar de seu talento inegável, Aronofsky quase sempre derrapa no superficialismo. Como se apostasse num ponto de vista e o mantivesse firme até a última cena - sem muita reflexão ao longo do processo. Nesse sentido, Cise Negro, mesmo com todo seu rebuscamento, pode ser considerado previsível.

Sobre Natalie Portman, fica a certeza de seu favoritismo ao Oscar de melhor atriz. É verdade que ela passa 90% do tempo com cara de quem comeu e não gostou, mas sua doação ao papel convence até os mais ranzinzas. Se a Academia não resolver premiar Annette Bening por injustiças cometidas em anos anteriores, a estatueta é da Padmé.

PS - Não acho que o Oscar "esnobou" a coadjuvante Mila Kunis. Barbara Hershey está muito melhor.

ENTREVISTA: MR. CATRA


Para "A Outra Folha da Terra"

UM FUNKEIRO NA ALTA RODA

Mr. Catra, ícone do gênero, é a atração de hoje em boate "top" de Curitiba

"Irmão, o funk é o único movimento que nivela todas as classes sociais. Funkeiro é todo mundo que dança, que se expressa com corpo". Quem garante é Wagner Domingues da Costa, o Mr. Catra, um dos maiores ícones do gênero musical surgido nas favelas cariocas. Atração de hoje na Awake, uma das boates preferidas da alta roda curitibana, ele afirma que não faz a menor distinção entre seu público.

"Tem patricinha que rebola mais do que favelada. A única coisa que você não vai ver, mano, é playboy cantando funk em cima do palco", diz, gargalhando, o MC de 42 anos. E não se trata de um discurso simpático para agradar a audiência. Nascido no Morro do Borel, mas criado numa casa de ricos, onde a mãe era empregada, ele é realmente um expert no trânsito entre os dois mundos.

Conhecido por seu estilo de vida excêntrico, digno de suas letras "cabeludas", Catra cumpre uma exaustiva maratona mensal de shows para sustentar a família numerosa. É o preço que paga por ter 20 filhos, de várias mulheres. A agenda lotada, no entanto, não justifica a duração tão reduzida de suas apresentações (de cerca de uma hora). "As músicas de rap têm entre três e cinco minutos. Então, um show de uma hora é pouco. Já as músicas de funk têm, no máximo, um minuto e meio. Uma hora de funk é muito, irmão!", explica, rindo.

Questionado sobre a última grande ofensiva policial contra o tráfico de drogas no Rio, Catra muda o tom. "Isso é uma babaquice. O modelo das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) não funcionou em outros países e não vai dar certo aqui também", afirma. Para ele, a solução é a liberação geral das drogas. "Tem que liberar e tributar. Assim, o governo ganha dinheiro, paga melhor o policial e todo mundo se sente mais seguro. O Rio tem que ser igual a Amsterdã".

O papo volta a ficar relaxado quando o assunto é o planejamento para este ano. Sem gravar um disco completo desde 2006, o MC prepara nada menos do que seis lançamentos. A ideia é compilar todas as faixas avulsas disponibilizadas na internet e que saíram em coletâneas internacionais nos últimos anos. Em outra frente de trabalho, ele também pretende agenciar novos artistas, como o grupo Havaianas, a cantora e dançarina Mariana Souza e Alandinho, seu filho mais velho.

Mas o projeto mais interessante dá conta do primeiro documentário "oficial" sobre sua trajetória. "Oficial" porque, no ano passado, vazou na web o piloto de um programa de tevê que não vingou, "90 Dias com Catra". Espécie de reality show baseado no cotidiano do funkeiro, o vídeo fez sucesso na rede e acabou motivando a realização de um longa-metragem.

Segundo o MC, a produção do filme será de Paula Lavigne, empresária e ex-mulher de Caetano Veloso. E a direção, do próprio baiano. "O Caetano tem uma visão política e social muito grande", elogia. Se a informação for mesmo quente, vem aí uma das parcerias mais poderosas da cultura pop brasileira.

ENTREVISTA: LEANDRO DELMONICO (CHARME CHULO)


Matéria para a Fôia.

O QUE HOUVE COM O CHARME CHULO?

Em nova fase na carreira, banda curitibana toca na capital e em Londrina no fim de semana

Os roqueiros caipiras do Charme Chulo estão de volta à terrinha. Tocam hoje na capital e amanhã em Londrina, nos bares Jokers e Valentino, respectivamente. Os shows marcam o reencontro do quarteto, no palco, após o ‘‘desmonte’’ do apartamento do grupo em São Paulo. Depois de quase um ano morando juntos por lá, os integrantes agora vivem em cidades diferentes. É ‘‘a nova ordem’’ da banda, como define o guitarrista (e violeiro) Leandro Delmomico.

‘‘A ideia, este ano, é reelaborar o show, tocar esporadicamente e preparar o terceiro disco’’, afirma Leandro, que retornou a Curitiba. Ele continua próximo do parceiro de composição, Igor (voz), atualmente em Ponta Grossa. Luciano (baixo) também voltou para casa, em Rolândia, e Rony (bateria) continua na megalópole. Mas, afinal, o que houve com o Charme Chulo?

Segundo o guitarrista, os quatro se mudaram de mala e cuia para descolar um produtor/empresário que ajudasse a impulsionar a carreira da banda. Não encontraram a figura certa, mas ao menos conseguiram se manter às próprias custas. ‘‘Foi uma surpresa, até para os nossos amigos, a gente pagar aluguel tocando música própria no interior de São Paulo’’, diz.

A correria da autoprodução, no entanto, causou um certo desgaste no grupo, que também não se identificou com o ritmo da cena musical paulistana. ‘‘Todo mundo está lá para fazer uma rede social, tentar ser pop. Tem festa o tempo todo na casa das bandas, baladas na Rua Augusta. Temos vários amigos nesse meio, mas a vida de sexo e drogas não é muito propícia para nós. Somos mais caipiras, no bom sentido’’, admite.

De qualquer forma, Leandro faz uma avaliação positiva do período. E acredita estar inspirado para compor o álbum mais ousado da trajetória do Charme Chulo. ‘‘Acho que a gente precisa dar uma de Dalton Trevisan e se esconder um pouco. É hora de tocar menos, se valorizar e gravar um disco legal para lançar em 2012’’, afirma.

Em tempo: o show de abertura em Curitiba fica a cargo do grupo Pão de Hamburger, uma das gratas revelações dos últimos tempos na cidade. Nome nonsense à parte, o quinteto se inspira no rock setentista para fazer um som completamente fora de moda - e, talvez por isso, muito autêntico. Destaque também para a formação com três guitarras sempre bem timbradas.

COMÉDIA ROMÂNTICA COM SEXO


Agora entendo por que O Amor e Outras Drogas foi mal de bilheteria nos EUA.

Vendido como comédia romântica, o filme realmente tem toda a estrutura do gênero. A diferença, no entanto, é a temática um pouco mais "adulta" para o paladar do público médio.

A começar pela crítica firme à indústria farmacêutica americana, com direito a estilhaços para médicos gananciosos e consumidores viciados.

Mas o que pega mesmo é o sexo. Só se fala em sexo. Até se faz sexo! Os atores ficam pelados! Enfim: algo cada vez mais difícil de se encontrar no cinemão crossover, que tem a obrigação de atrair toda a família.

Outro item raro presente no pacote é o ótimo entrosamento do casal principal (que já trabalhou junto em O Segredo de Brokeback Mountain). Uma prova de que o expediente de reunir dois superastros, por si só, não é a garantia de uma boa sessão. Vide o fiasco da duplinha do post abaixo...

A ANDRÓIDE E O SONSO


Só o suposto jabá do Globo de Ouro explica as indicações de Johnny Depp e Angelina Jolie por O Turista.

Não bastasse o filme ser fraquíssimo, um está mais canastrão do que o outro. Ele, o freak sonso de sempre. Ela, cada vez mais robótica. Fiquei constrangido em vários momentos da cabine.

No mais, temos um roteiro que busca mesclar ação, suspense, comédia e romance - mas acaba patinando em todos esses gêneros. Nem as viradas mirabolantes, feitas sob medida para quem passa a sessão inteira tentando "descobrir o final", empolgam.

Vou cobrar do jornal meu adicional de insalubridade!

CAMALÕES MUSICAIS


Resgate de uma reportagem sobre bandas de baile que fiz para a FdL. As fotos são do Theo Marques.

A realidade musical do Brasil, definitivamente, não está nos cadernos culturais. Também passa longe da televisão, que deixou de fabricar seus ídolos para cortejar um ou outro fenômeno já estourado nos rincões do país. Nesse cenário periférico e fragmentado, um formato tradicional sobrevive justamente por sintetizar toda essa movimentação: o das bandas de baile.

Radicalmente ecléticos, os conjuntos do gênero atualizam seu repertório mutante o tempo todo, de acordo com o gosto do público. Estar antenado com as novidades, portanto, é sua garantia de longevidade. Ondas musicais vêm e vão - e até os DJs hoje são encarados como artistas. Mas nada parece abalar a força das bandas, que seguem rodando pelas estradas a bordo de seus ônibus coloridos.

Às oito da manhã de uma quinta-feira, um deles estaciona em frente à Sociedade Água Verde, em Curitiba. Traz os integrantes do grupo Almas Iguais, atração do baile marcado para o início da noite. Vindos de Paranavaí, os 15 passageiros (10 músicos e 5 técnicos) estão "no bagaço", como define um deles.

Foram quase nove horas de viagem, a primeira de uma maratona de 11 dias na estrada. Por isso, ninguém se faz de rogado e todos ajudam a descarregar o equipamento. Inclusive os "donos" do conjunto, os irmãos Brito, juntos nos palcos há 25 anos.

Uirá e Antônio, os mais velhos, hoje cuidam apenas da logística dos shows. Ubirá canta, Barrinha toca baixo e outros dois sobrinhos completam o núcleo central. Mesmo surpresos com a abordagem inesperada da reportagem, eles abrem o jogo sobre a atual situação do Almas Iguais, anteriormente conhecido como Corpo e Alma.

Em 2006, um grupo homônimo do Rio Grande do Sul conseguiu provar na Justiça que tinha os direitos sobre o nome há mais tempo. Os Brito foram obrigados a rebatizar a banda, mas a perda da marca foi péssima para os negócios. "Tivemos que recomeçar praticamente do zero", conta Uriá.

Segundo ele, o conjunto chegou a viajar com três ônibus e um caminhão na época das vacas gordas. Agora, com a estrutura reduzida ao mínimo necessário, não consegue sequer manter bailarinas fixas. Para o show daquela noite, duas moças curitibanas "terceirizadas" dançariam por R$ 100.

No geral, uma banda de baile consolidada no mercado faz entre 10 e 12 apresentações por mês. Os cachês variam de R$ 1.500 a R$ 15 mil, dependendo do tipo de evento e do tamanho da estrutura exigida. Quando os "showmícios" ainda eram permitidos pelo Tribunal Superior Eleitoral, os artistas fechavam pacotes de 40 dias seguidos para acompanhar os candidatos.

"A proibição prejudicou muito os músicos. Hoje, a melhor época do ano é o Carnaval. No resto do ano, a gente toca em 'baileco' para sobreviver", diz Uriá.

PINGA NO BAMBU

A montagem do palco vai durar até o fim da manhã. E o que fazer até o início do show, previsto para às 19 horas? "Como não estamos em hotel, ficamos 'coçando' dentro do ônibus", admite Ubirá, o homem de frente do grupo.

O cantor também aproveita o tempo livre para compor. Sim, porque o Almas Iguais não toca apenas covers. Já são quatro CDs gravados, sendo que o quinto está na boca do forno. No último trabalho, o carro-chefe foi a faixa "Uísque e Redbull (Pinga no Bambu)", que pegava carona na mais recente onda etílica da música popular, puxada pelo megahit "Cair, Beber e Levantar".

Mas a tendência já mudou de novo, ele conta. O que pega agora são letras sobre marmanjos que esnobam as garotas, bem ao gosto dos fãs do movimento conhecido como "sertanejo universitário". Vide sucessos como "Chora, Me Liga" (João Bosco e Vinícius), "Paga Pau" (Fernando e Sorocaba) e "Deixa a Mala Pronta" (Hugo Pena e Gabriel) - todos na contramão da dor de corno típica da música caipira.

De olho na moda, Ubirá revela que escreveu uma música "mais moderna" para o novo CD do Almas Iguais. E recita um trecho de "Tô de Boa", que narra a história de um sujeito às voltas com uma ex-namorada louca para reatar o relacionamento. "Tô de boa, tô de boa / Me cuidei, hoje tô bem / Agora numa boa, preciso de um tempo também", diz o refrão.

"Vou batalhar até conseguir um sucesso", confessa o músico, antes de se despedir da reportagem. Naquela noite, porém, o público não teria a oportunidade de ouvir sua candidata a hit nacional. "Hoje o baile é para um pessoal mais velho. Só vai tocar Frank Sinatra, Pepino Di Capri, Manolo Otero", diz, resignado com o gosto da freguesia.


JAIR, O SOBREVIVENTE

Brasil 2000, Metrópole, Santa Mônica, Edição Especial, Almas Iguais, New York, Fonte Luminosa... Enquanto você lê este texto, incontáveis conjuntos paranaenses estão viajando pelas estradas do país - indo ou voltando de shows. Nenhum deles, no entanto, tem mais milhas rodadas do que o Jair Supercap, talvez a banda de baile mais antiga do estado ainda em atividade.

Formado em 1974 pelos irmãos Barreto, de Jacarezinho, o grupo ficou notório pelo carisma de Jair, um showman nato, intuitivo. Quem assistia ao antigo programa do Bolinha, na TV Bandeirantes, na década de 80, deve se lembrar dele. Maquiado e fantasiado, o artista popular divertia o público com suas imitações de Ney Matogrosso, Maria Bethânia, Simone, etc.

Por essas e outras, a reportagem não pensou duas vezes quando descobriu que o Supercap estava escalado para animar uma "domingueira" na Sociedade Água Verde. Entrou em contato com o clube e negociou a cobertura do baile. "Negociou" porque a secretaria impôs uma condição: não fotografar os frequentadores. "É que tem muita gente casada que vem aqui sozinha e não quer ser identificada", explicou uma funcionária.

Corta para o fim de tarde daquele domingo. Nos dois salões do clube, um público, digamos, maduro, dança ao som de sucessos sertanejos e gauchescos. São mulheres e, principalmente, homens entre 45 e 65 anos, envolvidos num clima de paquera quase adolescente. Enquanto Jair e sua trupe não aparecem, um DJ e um grupo de vanerão promovem o arrasta-pé.

Odilon, um dos irmãos fundadores do Supercap, apresenta-se para a reportagem. Chegou antes porque é o técnico da banda, mas conta que já foi baixista. Trocou de lado por conta de uma certa desilusão com o meio. "Ninguém se importa mais com a música. O som ter quem ser alto, só isso", lamenta.

Seja como for, sua mulher e o filho de 20 anos continuam no palco. Ela é uma das vocalistas do grupo, enquanto o rapaz seguiu o pai no contrabaixo. Ao todo, 12 membros da família Barreto fazem parte do Supercap, entre músicos, técnicos e produtores. "É o Jair que mantém todo mundo unido. Se ele tivesse a minha cabeça, já teria parado", confessa Odilon.


OPÇÃO PELA FAMÍLIA

O band leader, enfim, chega ao clube. Passa rápido pelo corredor e o seguimos até o camarim. É um espaço pequeno e precário, com apenas um espelho e marcas de infiltração pelas paredes. Enquanto a garotada do balé se prepara, Jair, o sobrevivente, conversa com a reportagem.

"Quando aparecia no Bolinha, recebi vários convites para largar a banda. Mas optei pela família", diz, sobre a longevidade do Supercap. Aos 57 anos, ele se mantém antenadíssimo com as paradas de sucesso. A prova é uma caixa de papelão que carrega para todo lugar, cheia de fichas com nomes de músicas novas. Até o som emo de Fresno e NX Zero tem lugar no repertório.

Sem citar nomes, Jair comenta as tendências do momento. "Os artistas de hoje duram muito pouco. O pessoal consome música como se fosse bolacha", critica. Os grandes talentos da atualidade, para ele, são Marisa Monte e Ana Carolina. "Gosto de poesia e melodia, coisas que esses grupos que só sabem tocar três acordes não têm", explica.

Quanto aos negócios, o artista (que também é dono de uma rádio em Cambará) não tem do que reclamar. Mesmo com a proibição dos showmícios. "Isso foi bom para quem realmente tem qualidade. Limpou o mercado das porcarias", afirma.

Atualmente, o Supercap faz em média 14 shows por mês, com cachês entre R$ 4 mil e R$ 15 mil. O ponto alto do ano na agenda é a Festa do Peão de Barretos (SP), da qual a banda é uma das atrações mais tradicionais. "Dessa vez, vamos fechar para o Roberto Carlos", orgulha-se.

E por falar no Rei, é hora de começar a apresentação, que vai contar com uma sequência inteira de canções do maior ídolo popular do país. Depois de uma abertura "épica", com direito a efeitos especiais e música techno, Jair sobe ao palco usando um paletó azul, em referência ao homenageado da noite. Ao som de "Detalhes", os casais se grudam no centro da pista.

Na mesma hora, a quilômetros dali, o verdadeiro Roberto faz o grande show comemorativo de seus 50 anos de carreira, no Rio de Janeiro. Está feita uma improvável conexão Maracanã-Água Verde.

SHOW DE TECNOLOGIA

Nos últimos anos, alguns conjuntos de baile também passaram a ser chamados de "bandas show", por conta do aparato que envolve suas apresentações. A começar pelas dançarinas, que tomam conta do palco com seus figurinos e coreografias extravagantes. Mas o que enche mesmo os olhos - e ouvidos - do público são as novidades tecnológicas.

Uma aparelhagem que se preze deve incluir um sistema de luz e som de ponta, além de telões de alta definição (vários, se for possível). São toneladas de equipamentos, carregadas para lá e para cá de acordo com a exigência do contratante. "Para o show de hoje, só trouxemos 20% do que temos", conta Odilon, técnico do Supercap, diante de uma infinidade de traquitanas. Imagina a estrutura inteira...

Guitarrista e gerente da banda Fonte Luminosa, de Atalaia, Jeferson Fontinhas diz que os avanços tecnológicos obrigam os grupos a trocar de equipamentos anualmente. Recentemente, o conjunto comprou novos canhões de luz e trocou todos os telões convencionais por aparelhos de plasma. "O contratante e o público observam muito se a estrutura está atualizada", afirma.

As tecnologias de comunicação são igualmente importantes. Principalmente a internet, que se tornou o principal cartão de visitas dos grupos. Todos têm site, comunidade no Orkut, canal no YouTube, etc. "A internet é tudo hoje. É um vício para o jovem, e o adulto que não entrar nessa vai ficar por fora", diz Jair.

Jeferson vê outra utilidade na web. Para ele, a rede é uma forma de ficar "plugado" nos hits do momento. "Antes de fazer um show em Brasília, por exemplo, a gente entra nos sites das rádios de lá para saber o que anda tocando, as músicas mais pedidas", explica.

MINHAS MÚSICAS DO ANO


INTERNACIONAL

N.E.R.D. - "Hypnotize U"
Kanye West ft Jay-Z, Rick Ross, Nicki Minaj e Bon Iver - "Monster"
Janelle Monáe ft Big Boi - "Tightrope"
Ariel Pink's Haunted Graffiti - "Round and Round"
N.E.R.D. - "Victory"

INTERNACIONAL (POPULAR)

Ke$ha - "Tik Tok"
Edward Maya & Vika Jigulina - "Stereolove"
Lady Antebellum - "Need You Now"
Rihanna - "Rude Boy"
Katy Perry - "Teenage Dream"

NACIONAL

MV Bill - "O Bonde Não Para"
Cérebro Eletrônico - "Os Dados Estão Lançados"
Lurdez da Luz - "Andei"
Charme Chulo - "Nova Onda Caipira"
Do Amor - "Morena Russa"

NACIONAL (POPULAR)

Exaltasamba - "Fugidinha"
NX Zero - "Só Rezo"
DJ Maluco & Aladin - "Zuar e Beber"
Fábio Elias - "Parei"
Jorge Vercillo & Filó Machado - "Arco Íris"

CLINT XAVIER


E a primeira cabine de 2011 não poderia ser melhor: Além da Vida, o novo do Clint Eastwood.

É claro que o velho mestre não decepciona. Novamente, sua direção precisa e enxuta faz toda a diferença na hora de contar uma história que quase escorrega para o dramalhão. O resultado é um filme "espírita" que faz Chico Xavier e Nosso Lar parecerem episódios de Malhação.

O roteiro, igualmente certeiro, entrelaça as trajetórias de três personagens envolvidos, de alguma forma, com "o outro lado". Todos marcados por tragédias e fatalidades - como é de praxe na obra do cineasta.

A francesa Marie tem uma experiência de quase morte (numa sequência inicial incrível). O garoto inglês Marcus não consegue superar a perda do irmão gêmeo. E o vidente americano George nega a própria mediunidade para ter uma vida normal.

Com a serenidade e segurança de sempre, Eastwood amarra o destino do trio sem apelar para soluções mirabolantes. Também não faz panfletagem pró-espiritismo. Pelo contrário. Seu filme mais investiga o tema do que reforça uma tese.

De resto, temos os ótimos desempenhos da lindíssima Cécile De France, dos atores-mirins Frankie e George McLaren e de Matt Damon, o astro que nunca entra em barca furada. Nesta época de entressafra nos cinemas, Além da Vida é o programão do fim de semana.