NÃO SE ILUDA


Hector Eles são estúpidos demais para usar o poder que têm.

Shotover
Não se iluda: eles o usam. Nós matamos o melhor de nós mesmos, todos os dias, para aplacá-los. Saber que toda essa gente está aí para frustrar as nossas frustrações nos impede de ter aspirações.

Bernard Shaw, em Heartbreak House.

UM GALÃ SEM PEGADA?


Pegue o galã do momento. Acrescente dois vencedores do Oscar. Tempere com um bicho fofo. Coloque tudo numa história romântica e de época, baseada em um best-seller internacional. Taí a receita de Água para Elefantes, em cartaz a partir de hoje nos cinemas do país.

Trata-se da primeira grande produção estrelada por Robert Pattinson depois do estouro da saga Crepúsculo. E também um teste para o ator, que aqui desempenha um papel mais complexo, adulto. A boa notícia para as fãs é que o rapaz se sai razoavelmente bem com seu bronzeado natural (ou seja, sem a maquiagem pálida do vampiro Edward).

Versão do livro homônimo da canadense Sara Gruen, o filme do diretor Francis Lawrence (Eu Sou a Lenda) narra a jornada de Jacob Jankowski. Descendente de poloneses, ele estuda para ser veterinário durante a Depressão americana. Quando seus pais morrem, repentinamente, o rapaz fica na miséria e acaba acompanhando um circo.

Um circo à moda antiga, diga-se. Com direito a animais, atrações bizarras, jogos de azar e até uma tenda "paralela" com shows eróticos. Algo totalmente diferente dos espetáculos politicamente corretos e higienizados da era Cirque du Soleil.

A magia, no entanto, só existe embaixo da lona. Nos bastidores, as condições de trabalho e sobrevivência são insalubres. As pessoas trabalham em regime de semi-escravidão, enquanto os animais sofrem todos os tipos de maus tratos. É nesse ambiente contraditório que o personagem vai amadurecer na marra.

Educado e gentil, Jacob logo chama a atenção do dono da companhia, August (Cristoph Waltz, o nazista poliglota de Bastardos Inglórios, papel que lhe deu o Oscar de melhor ator coadjuvante no ano passado). Uma figura ao mesmo tempo fascinante e cruel, que trata com tirania até mesmo sua companheira, Marlena (Reese Witherspoon, premiada com a estatueta dourada por Johnny e June).

Obviamente, inicia-se um triângulo amoroso que não vai acabar bem. Ou melhor: um quadrado, já que lá pelas tantas surge uma elefanta no caminho dos protagonistas. Rosie é o nome da paquiderme, estrategicamente inserida na trama para levantar a questão dos direitos dos bichos (causa defendida pela autora do livro).

De resto, não há muito o que se dizer sobre Água para Elefantes - um filme todo "certinho" do ponto de vista técnico, porém pouco empolgante. A começar pelo próprio romance entre Jacob e Marlena, que não pega fogo em nenhum momento. Como em Crepúsculo, Pattinson fica novamente devendo. Não como ator, mas no quesito pegada.

CURSINHO INTENSIVO DE HUMILDADE


O realismo sempre foi uma das grandes marcas dos quadrinhos da Marvel Comics. Seus personagens são indivíduos comuns, que ganham superpoderes por algum motivo explicado pela ciência - mas continuam tendo de lidar com os problemas e dilemas típicos de qualquer mortal. É assim com Homem de Ferro, Homem-Aranha, Hulk, X-Men, Demolidor, etc.

Uma rara exceção é Thor, cuja adaptação para o cinema estreia amanhã no circuito brasileiro. Inspirado na mitologia nórdica, o Deus do Trovão se divide entre a Terra e uma dimensão paralela que transcende a compreensão humana. Um universo, convenhamos, bem mais difícil de ser transportado do papel para a tela.

Difícil, porém possível. Graças a um roteiro fiel à história original e toneladas de efeitos especiais de ponta, o filme cumpre corretamente a tarefa de apresentar o herói. E vai além, deixando ganchos importantes para Os Vingadores, longa que vai reunir alguns dos principais personagens da Marvel em 2012.

Com Chris Hemsworth (de Star Trek) no papel principal, Thor concentra boa parte de sua ação no reino mágico de Asgard, onde o filho de Odin se prepara para herdar o trono. A transição, no entanto, não acontece como o previsto. Arrogante e impulsivo, o loirão põe em risco seu povo e perde a coroa para o irmão, Loki (Tom Hiddleston).

Banido e desprovido de poderes, ele vai parar no deserto do Novo México. Lá, conhece a cientista Jane (Natalie Portman) e faz uma espécie de cursinho intensivo de humildade. Ou seja: está pronto para retomar sua missão épica e salvar os asgardianos da ameaça de seus inimigos milenares, os Gigantes de Gelo.

Essa redenção simplista é o ponto fraco de uma produção que prometia um pouquinho mais de profundidade. Afinal, foi dirigida pelo inglês, de formação "shakespeareana", Kenneth Branagh, cujo currículo inclui uma versão intensa e eletrizante de Frankenstein (estrelada por Robert De Niro). Aqui, pelo visto, ele teve de fazer concessões visando à audiência infantil.

Thor, portanto, não se enquadra no rol das adaptações de quadrinhos capazes de encantar os adultos leigos no assunto. Para essa fatia do público, o filme talvez funcione apenas como um concurso de cosplay - ou de fantasias do Hotel Glória, se você é do meu tempo.

DESENHO COM DATA DE VALIDADE


A nova empresa de animação Illumination Entertainment parece já ter encontrado um nicho de mercado: os desenhos para as crianças pequenas. Foi assim com seu primeiro projeto, o bem-sucedido Meu Malvado Favorito (2010), cuja principal marca era justamente deixar de lado o humor esperto e as referências pop que os pais tanto curtem em títulos como Shrek e Monstros vs. Alienígenas.

Menos de um ano depois, a companhia volta a bater nessa tecla, dessa vez com Hop - Rebelde Sem Páscoa, que estreia hoje no país. Espécie de "Alvin e os Esquilos com coelhos", a produção combina personagens animados com atores de carne e osso para contar uma história completamente ingênua. O problema é que o filme parece ter sido feito a toque de caixa. E não deve durar muito na memória dos pequeninos (quanto mais na dos pais).

Com direção de Tim Hill (o mesmo de Alvin), Hop começa na Ilha de Páscoa, onde o pequeno Junior é preparado para substituir o pai, o próprio Coelho da Páscoa, na missão de fabricar e distribuir doces. Enquanto isso, em Los Angeles, um menino chamado Fred cresce com a certeza de que um dia viu o comedor de cenoura deixando uma cesta com chocolates na porta de sua casa

Vinte anos depois, Junior quer ser baterista profissional - e foge para Hollywood em busca da fama. Já Fred (James Mardsen, de Encantada), desmotivado para o trabalho, é pressionado pelos pais a amadurecer na marra. Os dois acabam se cruzando e, juntos, "aprontam as maiores confusões", como diria o locutor dos comerciais da Sessão da Tarde.

Como em Alvin, Zé Colmeia, Garfield e outras produções do gênero, os bichinhos nem sempre casam direito com os personagens humanos. Não à toa, as melhores sequências do filme se passam na fábrica de doces, com seus pintinhos operários e engenhocas no estilo Willy Wonka. O destaque, por sinal, fica por conta do pinto-chefe, Carlos, o mau-humorado braço direito do Coelho da Páscoa.

Mas tanta cor e fofura não compensam o roteiro preguiçoso e a atuação infantilizada (no pior sentido do termo) de Mardsen. Resta fazer o teste com quem realmente interessa. Se as crianças saírem do cinema já pensando em lanchar, é porque Hop tem mesmo uma data de validade: o domingo de Páscoa.

ENQUANTO SEU LOBO NÃO VEM


As chamadas na tevê de A Garota da Capa Vermelha avisam que o filme é "da mesma diretora de Crepúsculo". Porém, se os marketeiros fossem mais diretos, o apelo seria: "Calculadamente parecido com Crepúsculo". Em cartaz a partir de amanhã no Brasil, a nova versão de Chapeuzinho Vermelho é um prato cheio para os fãs da saga teen vampiresca - mas pode causar uma certa indigestão nos maiores de 16 anos.

Aqui, a cineasta Catherine Hardwicke e o roteirista David Leslie Johnson (do ridículo A Órfã) transportam a personagem para uma vila sombria e medieval. A expressiva Amanda Seyfried (de Mamma Mia!) é a protagonista, Valerie, cobiçada por dois rapazes. Por imposição da família, ela deve se casar com o abastado Henry (Max Irons). No entanto, seu coraçãozinho bate mesmo pelo pobretão Peter (Shiloh Fernandez).

Se esse fosse seu único problema, tudo bem. Mas um lobisomem que ronda o povoado há gerações volta a atacar, e a moça se vê no centro da confusão. Como se não bastasse, um padre maluco e caçador de bestas (vivido por Gary Oldman) garante que o bichão é, na verdade, um morador do local. Valerie, então, começa a duvidar de todos que a cercam, inclusive dos membros de sua família.

Além do triângulo amoroso juvenil e da presença sobrenatural, A Garota da Capa Vermelha guarda outras semelhanças com Crepúsculo. Os diálogos são empolados, a direção de arte é cafona e a fotografia não vai além da cosmética dark. Para piorar, a trilha sonora moderninha, que deveria criar um contraponto com a ambientação retrô, acaba bagunçando ainda mais o coreto.

A história só cresce nos últimos 15 minutos, quando ganha contornos psicanalíticos - e deixa o espectador adulto com a sensação de que o projeto original era realmente interessante. Pena que o público-alvo seja tão bobinho. Ainda assim, fica uma aviso para os pais: o filme tem algumas sequências violentas e sensuais, não muito indicadas para os pré-adolescentes.

MULHERES NÃO MACHUCAM?


Da inesgotável série Releases Inesquecíveis.

Mulheres não machucam? Sugestão de Pauta.

(...) ‏"Femear é a feminilidade e a fertilidade das artes, a sutilidade e a força de cada voz, a semente que desabrocha em cada flor e canto".

Femear é uma palavra inventada para expressar o sentido inverso e proporcional a "machucar". Machucar vem etmologicamente da palavra "macho, viril, varão". No entanto, mulher não é macho para machucar, mulher tem um jeito próprio para "sofrer danos" e "provocar danos".

O Projeto Femear é a reunião de canções compostas pela pesquisa de XXXXX e parcerias, com arranjos e execuções de XXXXX. São 14 músicas, 7 cantoras, 3 países e 1 conceito.

(...) Financiamento Solidário

O Projeto Femear será lançado exclusivamente pela internet e o objetivo é que os internautas doem recursos para a montagem do espetáculo Femear, o qual reunirá todas as cantoras participantes do projeto num show ao vivo.

A idéia é que a valorização do trabalho artístico realizado seja numa lógica de cooperação e solidariedade. Ou seja, a visão é que o público se apaixone pelas cantoras, pelas canções e pelo projeto e que queiram cooperar mutuamente para conseguir reuni-las num show as co-produzindo e co-financiando.

O ESPECTRO


Todo homem está sob o poder de seu espectro
Até que chegue a hora
Em que sua humanidade desperta
E lança seu espectro no lago


William Blake em The Book of Los.

FALTOU FUNK


Com o cacife de quem comandou o filme mais assistido no mundo em 2009 (A Era do Gelo 3), o brasileiro Carlos Saldanha se viu autorizado a puxar a brasa para a própria sardinha. E desfrutou dessa liberdade muito bem, como se pode conferir em Rio, uma das animações mais bonitas, visualmente falando, já produzidas pelos estúdios americanos.

Em cartaz a partir de hoje, o desenho também é o maior lançamento da história da 20th Century Fox no país. Uma estratégia ousada, que inclui a exibição em mil salas (em cópias tradicionais e 3D) e uma campanha publicitária onipresente. Até a prefeitura carioca entrou no embalo, bancando uma ala inteira da escola de samba Salgueiro dedicada aos personagens.

Rio começa com um balé de pássaros, que rapidamente são caçados por traficantes de animais silvestres. Entre os capturados está o protagonista, Blu, uma arara-azul bebê que ainda não aprendeu a voar. Seu destino é uma cidade gelada dos EUA, onde ele felizmente recebe um tratamento de "gente" por parte de sua dona, Linda.

Sua rotina pacata é interrompida com a chegada de Túlio, um biólogo brasileiro que quer levá-lo ao Rio de Janeiro, para cruzar com a última fêmea da espécie. Acompanhado de Linda, ele chega à cidade em plena movimentação carnavalesca - com direito a dicas das aves "malandras" do pedaço e foliões sambando com pouca roupa no meio da rua.

Logo depois que Blu conhece a arara Jade, o pior acontece. Os dois são sequestrados por contrabandistas e vão parar num barraco de favela, onde centenas de outros pássaros estão engaiolados, prontos para serem vendidos. E o casal que até então não tinha química terá de superar suas diferenças para sobreviver.

O choque cultural, portanto, é o tema central de um filme que apresenta duas visões do Brasil. De um lado, há a paixão (e uma certa nostalgia) de Saldanha, que concebeu e dirigiu o projeto. Do outro, os inevitáveis estereótipos tupiniquins que fazem parte do imaginário dos americanos responsáveis pelo roteiro.

Sendo assim, o Rio de Janeiro romantizado da tela não chega a incomodar os nativos. Pelo contrário. Os cenários são tão caprichados que os adultos até ignoram os clichês, as piadas fraquinhas e o ritmo meio morno de parte da história. O único senão é a constrangedora trilha sonora de Sergio Mendes - uma mistura de Broadway com batucada para gringo ouvir. Faltou mais funk nessa receita (e, pensando bem, de modo geral).

UM ABSURDO!


Fúria sobre Rodas é um absurdo. Uma mistura nonsense de violência, armas, álcool, perseguições automobilísticas, mulheres nuas, caipiras americanos, magia negra... E tudo isso em 3D!

Dirigido por Patrick Lussier (de Dracula 2000 e do remake de Dia dos Namorados Macabro), o filme traz o endividado Nicolas Cage como protagonista. Sempre à vontade no papel de canastrão, o astro vive Milton, um ex-presidiário sedento por vingança. Sua filha foi assassinada pelo líder de uma seita satânica, que agora pretende sacrificar a neta dele.

A bordo de um carrão antigo e acompanhado de uma garçonete gostosona (Amber Head, de Zumbilândia), o personagem, sem muito papo, inicia uma trilha sangrenta em direção ao líder do grupo (Billy Burke, da saga Prepúcio, digo, Crepúsculo). Mas logo descobrimos que Milton não saiu exatamente de uma penitenciária - e sim do quinto dos infernos!

Isso explica sua indestrutibilidade, explorada em sequências esdrúxulas e bizarras. Em uma delas, só para se ter uma ideia da maluquice, o "motorista fantasma" mata uma penca de fanáticos com uma mulher pelada no colo, enquanto bebe uísque direto da garrafa. Inacreditável.

Vale destacar também a participação do figuraça William Fichtner. Conhecido do público pela série de televisão Prison Break (e coadjuvante em inúmeras produções de Hollywood), o ator rouba a cena na pele do misterioso "Contador". Bem que poderiam fazer um filme só dele.

Resumindo, Fúria Sobre Rodas é um divertido trash de luxo, no melhor sentido que o termo pode ter. Ou seja, traz todos os elementos caros ao gênero, mas com um acabamento, digamos, profissional. Altamente indicado para adolescentes espinhentos - e marmanjos que ainda guardam um pouco de sua porção juvenil.

Sobre a versão em 3D, uma boa notícia: este é um dos raros casos em que o formato realmente funciona. Ponto para o diretor, que já havia utilizado a tecnologia em Dia dos Namorados Macabro e deve ir além em seus próximos projetos (uma refilmagem de Hellraiser e o enésimo capítulo de Halloween).

PS - A trilha sonora também é o bicho, com músicas de T.Rex, Peaches, Raveonettes, Unkle, Everlast.

TRABALHO FINAL DO CURSO DE CINEMA


Talvez seja a ressaca do Oscar, mas ando com uma preguiça mortal de dar meus breves pitacos sobre cinema aqui no brógui. De qualquer forma, o trampo no jornal continua. Então segue o texto (mais "formal") que saiu hoje na Fôia.

Uma história forte, muitas vezes, salva um filme fraco. É o caso de Vips, que estreia hoje em circuito nacional. Produzido pela O2 (empresa de Fernando Meirelles) e dirigido pelo estreante Toniko Melo, o longa tem uma concepção tão simplória que chega a constranger em alguns momentos. Mas consegue prender o espectador graças às situações improváveis vividas pelo protagonista.

Inspirada no livro Vips - Histórias Reais de um Mentiroso, de Mariana Caltabiano (que também vai virar documentário), a produção narra as desventuras do estelionatário Marcelo Nascimento - interpretado por Wagner Moura. Atualmente cumprindo pena, ele virou notícia, há dez anos, quando tentou se passar por um dos donos da companhia aérea Gol.

Seu histórico de farsas, no entanto, começa bem antes disso. Criado apenas pela mãe, Marcelo é retratado como um rapaz esquisito e problemático, que sonha em ser piloto de avião, a exemplo do pai ausente. Para alcançar seus objetivos - não muito claros-, ele começa a contar mentiras e fingir ser outras pessoas. Até perder a noção de quem realmente é.

E é justamente nessa trajetória prévia que o filme se concentra, deixando o golpe mais notório para a última meia hora de projeção (o que torna o título Vips um tanto quanto frouxo). Ainda assim, trata-se de uma decisão acertada, pois o período em que Marcelo trabalha como piloto do tráfico de drogas na fronteira do Brasil com o Paraguai rende as melhores cenas do longa.

Outro destaque é o próprio Wagner Moura. Apesar de soar excessivo em algumas passagens, o ator consegue se manter num registro interessante (ou ao menos digno dos intérpretes que não se acomodam num único tipo). O mesmo não pode ser dito do diretor e sua equipe, que apostam em soluções básicas e convencionais do começo ao fim. O resultado é um filme com cara de trabalho final do curso de cinema.

Nesse sentido, Vips se compara ao recente Bruna Surfistinha. São duas produções nacionais, sobre personagens marginais e que miram no grande público - mas o subestimam ao optar por uma linguagem que fica entre a novela e o comercial de tevê. Será que somos tão toscos assim?

ENTREVISTA: LETUCE


Aqui vale uma introdução. Uma das atrações do Grito Rock de Curitiba, o Letuce (RJ) é uma "banda de casal" formada pelo multiinstrumentista Lucas Vasconcellos (ex-Binário) e a cantora Letícia Novaes (que ainda ataca de atriz, comediante, modelo).

Juntos, ele escrevem canções que combinam letras românticas e despretensiosas com arranjos que passeiam por vários gêneros (samba, rock, funk, folk, bossa nova, jazz). Mas tudo muito bem diluído - e pop -, como se pode perceber em seus dois registros "oficiais".

Em 2009, lançaram o álbum Plano de Fuga pra Cima dos Outros e de Mim, marcado por faixas como "De Mão Dada", "Ballet da Centopeia" e "Potência" (esta com direito a clipe rolando na MTV). No ano passado, gravaram o EP Couves, com versões para temas de Sade, Des'ree, Raça Negra e Só Pra Contrariar.

Segue um resumo da conversa que tive com os dois.

Você passam a impressão de que não têm pressa de divulgar o trabalho do Letuce, de fazer sucesso. Tanto que ainda não são muito conhecidos fora do Rio. É isso mesmo?

Letícia - É, sim. Porque a música é uma das coisas mais importantes da minha vida, mas não é tudo. Não vivo para lançar discos e ser reconhecida. Que bom que as pessoas gostam da nossa música e a gente pode se apresentar para elas. Mas não vou fazer nada de maneira forçada.

Mas o segundo disco sai este ano...

Letícia - Sim! Inclusive estou fechando com o Lucas os últimos detalhes. Letras que ainda faltam terminar, pedacinhos de música... E a ideia, na verdade um sonho, é lançar também uma tiragem em vinil.

Com raras exceções, os artistas da geração independente atual são muito tímidos, inclusive nos shows. Já o Letuce destoa desse grupo. A Letícia canta "para fora" e tem uma presença de palco segura, bem-humorada. Isso vem da formação teatral?

Letícia - Vem. Mas, além de ser atriz, faço stand up comedy há muitos anos. Estou acostumada a me apresentar para gente bêbada em casa de humor. Então simplesmente não consigo fazer cara de diva, de cool, de misteriosa.

Lucas - Tocamos no Teatro Rival e logo depois do show duas moças fizeram um elogio que define muito bem Letuce. Elas disseram que o nosso show era muito "desmontado". Para algumas pessoas isso pode parecer pejorativo, coisa de hippie. Mas, para mim, não é. É uma prova de que, como a gente planeja pouco as nossas apresentações, a novidade pode aparecer a qualquer momento.

Letícia - Não quero julgar o trabalho dos outros. Mas existe um tipo de timidez meio boba, forçada. Só que a gente percebe quando a coisa é sincera. Mesmo quando a pessoa canta miudinho. Eu mesma fico tímida e nervosa antes de tocar. Mas, chega na hora, alguma coisa desperta em mim e eu vou embora!

A Letícia é da Tijuca e o Lucas veio de Petrópolis. Isso talvez explique o desembaraço e o despojamento da banda, em contraponto à postura cool de outros artistas cariocas. Vocês acreditam que tiveram uma formação diferente de quem cresceu na Zona Sul?

Letícia - Inspiração não é só música, é também o ambiente em que você vive. No meu colégio, na Tijuca, todos os meus amigos só ouviam pagode e funk. Eu já gostava de rock, mas era impossível não prestar atenção nessas coisas, que acabam ficando na nossa memória afetiva. Quem consegue se livrar do preconceito vai descobrir melodias e letras lindas no meio das músicas de pagode, sertanejo, etc.

Esses dias mesmo estava falando com o Lucas sobre o Luan Santana. Não me afeiçoei a "Meteoro", mas tem uma outra letra dele que eu adoro. Uma que diz: "Você deixou suas digitais em mim". Acho isso lindo! Pena que ainda tem muita gente que não se permite ter esse tipo momento. Seja porque tem medo de parecer esquisito, seja porque o tópico do dia do Twitter não é esse.

Todas as letras do Letuce são sobre amor, relacionamentos. Vocês conseguem definir qual a abordagem que fazem desses temas?

Letícia - Tem uma música do U2, "One", que eu sempre choro quando ouço. É aquela que diz: "Love is a Temple". Para mim, o amor é um templo mesmo. O amor me salvou. Antes de conhecer o Lucas eu era até meio mal-humorada. Mas ele veio e foi um presente na minha vida. Então eu acho que a minha forma de agradecer ao mundo por esse presente é escrever canções de amor. Mas sem pretensão, sem reposta para nada, sem querer apontar o que é certo. Não existe isso de "um nasceu para o outro". Cada um deu sorte de encontrar o outro, e de ser amado pelo outro.

"AMIGO SECRETO DE PÁSCOA É A NOVA SENSAÇÃO ENTRE BRASILEIROS E CHEGA A INTERNET"


Claro que é da série Releases Inesquecíveis.

O brasileiro já tem a cultura do amigo secreto, em que amigos e familiares trocam presentes no Natal como uma forma de união e amizade. A brincadeira foi para a Internet e hoje se tornou um sucesso ainda maior.

Mas agora não é apenas no Natal que as pessoas confraternizam dessa maneira: a Páscoa é mais uma data escolhida para este propósito. Por esse motivo, os criadores do XXXXX, que têm a maior audiência da Internet brasileira para a brincadeira de amigo secreto online, resolveram inaugurar o XXXXX.

(...) “O objetivo é fazer com que nossos membros se divirtam como sempre, que brinquem, confraternizem, reúnam-se ainda mais com as pessoas queridas e possam comprar seus chocolates e ovos de Páscoa sem sair de casa”, diz XXXXX, criador do XXXXX.

A data é um período ideal para a brincadeira e as pessoas não precisam esperar até o fim do ano para trocarem presentes. “Nada como uma nova reunião com quem a gente gosta para trocar chocolates. Esse novo tipo de amigo secreto tem tido uma ótima repercussão”, pontua XXXXX.

ENTREVISTA: EDUARDO DUSSEK


Um dos clássicos da minha infância faz minitemporada em Curitiba nesta semana. Bati um papo com ele para a FdL.

Começando com uma pergunta meio tola. Por que você passou a assinar ''Dussek'' em vez de "Dusek"?

Por dois motivos. Primeiro, porque a pronúncia do meu nome é ''Dussek'' mesmo, ninguém nunca acertou. E depois veio a numerologia. Mas deixa eu contar uma história.

Nos anos 90, minha casa ficou em obras durante seis meses. Foi um inferno, porque o meu escritório também funcionava lá. E o mestre de obras ficava me chamando o tempo todo: ''Seu Duzzzééék!''. Aquilo me irritava de um jeito que você não imagina!

Enquanto isso, minha produtora passava por problemas com o fisco. Paguei tudo e resolvi procurar uma numeróloga para mudar o nome da empresa. Ela perguntou se tinha outro nome relacionado com o meu trabalho que eu poderia mudar, e eu disse que achava ''Dussek'' melhor que ''Dusek''. Ela fez os cálculos e achou maravilhoso!

E essa sua ligação com Curitiba, como surgiu?


Meu ex-sócio é daí. Fui padrinho de casamento dele, padrinho da filha mais velha dele. É como se eu tivesse uma família em Curitiba, onde também fiz muito trabalhos, principalmente em empresas. Cheguei a manter uma casa aí por 15 anos. Primeiro, uma casa mesmo, no Cristo Rei. Depois, um apart hotel na João Gualberto.

Hoje se fala muito sobre a importância de o artista gerenciar a própria carreira. Mas você já faz isso há anos, não?

Sempre trabalhei com bons empresários. Mas também sempre gostei de ser dono do meu nariz. Não gosto de assumir o erro dos outros. E como atuo em várias áreas, preciso ter um escritório para centralizar tudo isso. Na verdade, minha primeira produção é de 1974. Ou seja: tenho bem mais do que os 30 anos de carreira "oficiais" que estou comemorando agora.

Apesar de tantos anos de trajetória, sua discografia não é muito extensa...

Isso é carma! Sou capricorniano, então tudo para mim é mais difícil de fazer. Enquanto o leonino faz três coisas ao mesmo tempo, eu faço uma. E que dá errado. Sou um "inadimplente astral", como canto no início do show. Mas pergunto "quanto custa" e vou à luta.

A que você atribui um certo sumiço da grande mídia nos anos 90, logo depois do boom que a sua carreira teve na década anterior?

Isso é normal para uma pessoa carmática, como eu. Mas sou um carmático esperto. Porque o carmático burro dá murro em ponta de faca. Eu, não. Se não tenho nada a dizer, fico quieto.

O que aconteceu é que tive uma crise criativa muito séria, que começou logo após o fracasso de um disco que lancei no início dos anos 90. Cheguei a renegar tudo que fiz. Achava que faltava uma unidade na minha carreira. As pessoas não sabiam dizer se eu era debochado ou romântico, ator ou compositor. Isso me impediu de evoluir.

Mas a culpa era minha, então tratei de correr atrás de uma resposta para o problema. Essa busca levou 10, 15 anos. Mas como nunca dependi da mídia, não sou um BBB, continuei trabalhando.

E como você encontrou essa "unidade"?

Descobri que a coisa ia além do campo estético. Era pessoal, espiritual. Resolvi ser um cara legal, honesto com si mesmo. E que não se submete ao poder econômico, apesar de adorar dinheiro! Sou assim mesmo, gozador e romântico ao mesmo tempo. Então agora lanço trabalhos diferenciados, de grife, onde coloco a minha personalidade.

Você mencionou o lado espiritual. Envolveu-se com alguma religião?

Várias, todas as que você possa imaginar. Já bati todos os tambores. Hoje em dia sou ligado ao budismo, que eu acho mais moderno, mais avançado. No budismo você não tem obrigação com o externo, você se observa internamente.

Só que eu não virei careta, santinho. Por outro lado, assumi essa prostituição artística que existe no Brasil. A puta tem que agradar o coronel? Então vou ser a melhor puta possível. Mas o coronel tem que ser poderoso!

Tem algum projeto de disco ou DVD para este ano?

Estou preparando três lançamentos. Um DVD, que talvez seja duplo, com os melhores momentos da minha carreira. E dois CDs. Um de marchinhas de Carnaval, porque esse negócio está bombando, e outro só de canções românticas. Porque o público jovem descobriu meu trabalho com a música "Aventura", que entrou na novela Ti-Ti-Ti. Eles nem conhecem meu lado irreverente.

Curte algum artista novo?

Gosto da Vanessa da Mata, do MV Bill. Até de Fiuk eu gosto. Como chama aquela banda que tem nome em inglês?

Restart. Mas eles, e o Fiuk, são considerados lixo pela classe média "pensante". O que pensa disso?

O Brasil tem um problema que me preocupa muito, que é a falta de cultura. E esse preconceito das elites é falta de cultura também. Porque o popular e o erudito andam juntos desde as civilizações antigas.

A discussão não deveria ser por gênero musical, e sim se o artista tem alma ou não. Vamos parar com esse negócio de querer transformar o Brasil na Áustria, de ficar bajulando quem vem de Nova York ou Paris. Paris é uma grande Tijuca, um suburbúbio com obras de arte.

Sua atuação no filme Federal foi bastante elogiada. Inclusive pelo ator americano que participou do longa, o Michael Madsen. Isso já se reverteu em novas propostas de trabalho no cinema?

O Michael realmente gostou muito de mim, queria me apresentar para o Tarantino. Disse para eu ficar na casa dele em Los Angeles. Só que eu tenho senso de realidade, né? Quase disse para ele: "Ok, Michael. Mas agora eu vou para casa, porque tem uma loucinha lá para lavar". De qualquer forma, esse trabalho foi mais uma sementinha plantada, mais uma porta aberta. Que venham os convites!

ATIVIDADES DESLOCADAS


Atividades deslocadas são ações de preenchimento, executadas em períodos de tensão.

(...) Reuniões sociais criam tensões que podem ser aliviadas pela presença de facilidades para atividades deslocadas. Como drinques para os que não têm sede e comida para os que estão sem fome.

Uma boa parte do comer e do beber sociais entram nesta categoria.


Extraído da obra de Desmond Morris.