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POTENCIAL


Isso de potencial não quer dizer nada. Você tem que realizá-lo. Qualquer bebê abandonado numa caixa de sapato tem mais potencial do que eu.

VOCÊ É O MAL DA IMPRENSA


É um erro grave imaginar que o dr. Patrão domina o jornal. Ou que os anunciantes fazem o que querem do dr. Patrão e jornalistas.

Este duo tem, claro, alguma influência. Mas quem mais manda na mídia é você, meu caro leitor, ou espectador. E você, consumidor, é o mal da imprensa.

Editores quebram a cabeça diariamente para agradá-lo. O mal da imprensa é que ela não ousa desagradar o leitor. Seu maior defeito é o eufemismo.

Paulo Francis em Waaal - O Dicionário da Corte.

POBRE? NEM TANTO


Pobre Halim! Pobre? Nem tanto. Um guloso de amor carnal: fez da vidinha na província uma festa de prazeres.

Milton Hatoum, em Dois Irmãos.

NÃO SE ILUDA


Hector Eles são estúpidos demais para usar o poder que têm.

Shotover
Não se iluda: eles o usam. Nós matamos o melhor de nós mesmos, todos os dias, para aplacá-los. Saber que toda essa gente está aí para frustrar as nossas frustrações nos impede de ter aspirações.

Bernard Shaw, em Heartbreak House.

O ESPECTRO


Todo homem está sob o poder de seu espectro
Até que chegue a hora
Em que sua humanidade desperta
E lança seu espectro no lago


William Blake em The Book of Los.

O PRIMEIRO MINUTO DE UMA SERENIDADE REPENTINA


Era o primeiro minuto de uma serenidade repentina. Os seus movimentos, regulares e precisos, denotavam uma resolução enérgica. "Hoje mesmo!", murmurava.

(...) Os seus olhos inchados, o rosto emagrecido e lívido exprimiam uma energia selvagem. Não sabia para onde se dirigir, nem pensava nisto.

Sabia apenas que era preciso acabar com isto hoje mesmo, que não voltaria para casa sem isto, "porque não continuaria vivendo assim".


Fiódor Dostoiévski, em Crime e Castigo.

TRANSE


Direi toda a verdade, e outros continuarão o que comecei. Quero falar, e não escrever romances. Os romances nos impedem de compreender os sentimentos.

Quero dizer tantas coisas e não encontro palavras. Escrevo em transe, e esse transe se chama sabedoria. Todo homem é um ser racional. Não quero seres irracionais, quero todo o mundo em transe de sentimentos.

(...) Não quero ser curado. Não tenho medo de nada exceto da morte da sabedoria. Quero a morte da mente. A mente é estupidez.


Vaslav Nijinsky, em seu diário.

MEDO


Medo de ver a polícia estacionar à minha porta.
Medo de dormir à noite.
Medo de não dormir.
Medo de que o passado desperte.
Medo de que o presente alce voo.
Medo do telefone que toca no silêncio da noite.
Medo de tempestades elétricas.
Medo da faxineira que tem uma pinta no queixo!
Medo de cães que supostamente não mordem.
Medo da ansiedade!
Medo de ter que identificar o corpo de um amigo morto.
Medo de ficar sem dinheiro.
Medo de ter demais, mesmo que ninguém vá acreditar nisso.
Medo de perfis psicológicos.
Medo de me atrasar e medo de ser o primeiro a chegar.
Medo de ver a letra dos meus filhos em envelopes.
Medo de que eles morram antes de mim, e que eu me sinta culpado.
Medo de ter que morar com a minha mãe em sua velhice, e na minha.
Medo da confusão.
Medo de que este dia termine com uma nota infeliz.
Medo de acordar e ver que você partiu.
Medo de não amar e medo de não amar o bastante.
Medo de que o que amo se prove letal para aqueles que amo.
Medo da morte.
Medo de viver demais.
Medo da morte.

Já disse isso.


Raymond Carver, em All of Us: The Collected Poems (via Allan Sieber).

UM MAGNÍFICO RABO!


— Qual o sentido da sua existência?

— Já disse que é invisível. Não creio no mundo, nem no dinheiro, nem no progresso, nem no futuro da nossa civilização. Para que a humanidade tenha um futuro, é necessário que uma grande mudança se dê. (…)

— Quer que eu lhe diga? Quer que eu lhe diga o que você tem e os outros homens não têm? (…) Coragem dos próprios sentimentos, coragem da ternura; essa coragem que o faz pôr a mão no meu rabo e dizer que tenho um magnífico rabo!


D.H. Lawrence, em O Amante de Lady Chatterley.

IRREVERSÍVEL


Só há uma solução. Examinar pessoalmente o castelo, deduzir quais são seus pontos fracos e traçar um plano para escapar sozinho.

Mas o pensamento sozinho de nada adianta, porque é o pensamento que teve os pés e mãos atados pela hipnose do carcereiro; pelo hábito, preguiça, "formas de se ver", etc.

É necessário agir. Um homem pode mudar seus hábitos mentais mudando sua maneira de viver; às vezes um só ato pode mudar completamente toda a sua mentalidade.

(...) O importante é que se sinta que um ato de vontade é irreversível.


Colin Wilson, em O Outsider.

CURTO E FINO


Mais um Philip Roth foi para a fita. Ganhei A Humilhação no Dia dos Pais e matei praticamente de uma vez só. Pudera: o livro é curtíssimo, como os outros trabalhos recentes dele.

Aliás, tenho lido por aí algumas críticas negativas sobre essa fase vapt-vupt do escritor - e sua suposta superficialidade. Não sou da turma dos "eruditos" da literatura para fazer uma análise embasada, mas tenho a impressão de que o buraco é bem mais embaixo.

Para mim, o Roth, apesar dos 77 anos, apenas compreendeu que estes são tempos de mensagens urgentes, impactantes, concisas. Experimentou um formato mais econômico, sem perder a finesse, e acabou conquistando uma penca de novos leitores (como eu, ainda um neófito na obra dele).

"Fica a dica", portanto. E o trecho, que é de praxe...

(...) Por causa da dor na coluna, na hora de trepar Axler não podia se deitar em cima de Pegeen, e nem mesmo ficar de lado; assim, ele se punha em décubito dorsal enquanto ela montava nele, apoiando-se com os joelhos e as mãos para não jogar seu peso sobre o pélvis dele.

De início, Pegeen ficava totalmente sem know-how nessa posição, e Axler era obrigado a guiá-la com as duas mãos, indicando-lhe o caminho. "Eu não sei o que fazer", disse ela, tímida. "Você está montada num cavalo", ele respondeu. "Vá em frente." Quando Axler enfiou o polegar no cu de Pegeen, ela suspirou de prazer e cochichou: "Ninguém nunca enfiou nada aí dentro" - "Improvável", ele cochichou em resposta.

COINCIDÊNCIA OU NÃO


No Natal do ano passado, ganhei das minhas filhas (ou melhor, da mãe delas) o premiadíssimo O Filho Eterno, do Cristovão Tezza. Fui adiando a leitura, dando prioridade para outros livros, e só comecei há poucos dias. Mas como é bom, hein? Que ritmo! Passei da metade e o pique ainda não caiu.

Algumas amigas não gostaram muito. Entendo. O livro fala diretamente para o público masculino, essa parcela das criaturas que só aprende na base da paulada.

Com um desembaraço que deve ter levado anos para vir à tona, Tezza expõe tudo o que pensou e sentiu na luta para aceitar o filho com Síndrome de Down. Mesmo as ideias mais cruéis estão lá. Ainda quero chegar nesse nível de sinceridade.

Coincidência ou não, anteontem o Geneton publicou uma entrevista que complementa a minha leitura. Ele conversou com o francês Jean-Louis Fournier, diretor de tevê e autor de Aonde a Gente Vai, Papai?, em que conta sua experiência com os dois filhos deficientes. Com a mesma franqueza de Tezza, Fournier chega a dizer que "perdeu na loteria genética".

Seguem trechos do papo. A íntegra você lê aqui.

(...) O que é extraordinário é que, quanto a estas crianças, ninguém pergunta por elas. As pessoas ficam incomodadas. Porque a verdade é que não há nada a dizer sobre as crianças deficientes. Não podemos dizer: o que é que elas estão estudando? Fizeram provas? Arranjaram uma namorada?

(...) O fato de não ser parecido com os outros não quer dizer, necessariamente, que você não seja tão bom quanto os outros. As crianças deficientes são um mistério. Não temos o direito de dizer que a vida que elas vivem não é interessante, já que não sabemos.


Quase terminando este post, achei outro texto do Geneton, dessa vez sobre o próprio livro do Tezza. Não sei se ele tem algum interesse especial pelo tema. Talvez seja apenas mais um pai que, como eu, "ganhou na loteria genética" - mas não perde o interesse pelas histórias secretas das pessoas.

ENVELHECER SEM AMADURECER


Tenho grande interesse pelo trabalho de mulheres cineastas (Rebecca Miller, Jane Campion, Antonia Bird, Miranda July, etc.). E estou me iniciando, tardiamente, na literatura do Philip Roth. Por essas e outras, Fatal, que passou ontem no Telecine, foi um prato cheio para mim.

Trata-se de uma adaptação da short novel O Animal Agonizante, assinada pela diretora espanhola Isabel Coixet. No elenco, só gente que eu curto - Ben Kingsley, Penélope Cruz, Dennis Hopper, Patricia Clarkson, Peter Sasgaard, Debbie Harry.

O livro é melhor? Ainda não li, mas deve ser. Aliás, sempre digo que os cartazes de adaptações deveriam vir com uma advertência: "Se você leu o livro, caia fora ou feche o bico. Já sabemos sua opinião".

De volta à Fatal. O filme mostra, entre outras coisas, como uma paixão pode mexer com a cabeça dos homens (mesmo os mais vividos). Também confirma a infantilidade masculina nas relações afetivas. Porque não temos meio termo. Ficamos entre a indiferença e o descontrole.

Buscar esse equilíbrio é o desafio. Ou vamos envelhecer sem amadurecer, como o personagem principal.

PAIS E FILHOS


Nunca leio os best-sellers do momento. E isso não tem nada a ver com algum elitismo da minha parte. Se fosse assim, não curtiria um disco da Lady Gaga, ou um filme como Se Beber, Não Case.

É que livro exige um tempo maior. Então acabo me dedicando às obras, digamos, mais "intensas". Deve ser bobagem minha. Enfim...

Na verdade, quero contar que li O Clube do Filme, um desses títulos que a classe média se dá de presente. Meu pai ganhou, leu num voo e me indicou. Como acho importante dividir esse tipo de experiência com ele, resolvi encarar.

O autor, o crítico de cinema canadense David Gilmour, estava desempregado quando o filho adolescente começou a reprovar no colégio. Diante dos problemas, tomou uma decisão arriscada: deixou o garoto largar os estudos, com a condição de que os dois assistissem, juntos, a três filmes por semana.

O livro narra os três anos em que o tal Clube do Filme funcionou. E sabe que não é ruim? Meio superficial, e um tanto chato até a metade. Mas é mais um tijolo nessa discussão sobre a condição masculina nos dias de hoje.

Porque o cinema, pelo menos na minha leitura, é o de menos no livro. Poderia ser O Clube do Disco, dava na mesma. O barato, aqui, é a intimidade criada entre pai e filho - e as lições que se tira disso.

Como costumo dizer, a relação com a mãe beira o transcendente. O sujeito pode ter sido abandonado numa cesta, mas passa o resto da vida procurando quem o colocou no mundo.

O pai, não. O pai é facilmente substituído por outro. Nesse sentido, ser pai é uma "obra em progresso". Se o sujeito não estiver presente, dando aquela força sempre, dança.

Voltando ao livro, não duvido que pinte, em breve, uma adaptação para o cinema. Se for o caso, vai render uma Sessão da Tarde maneirinha...

Em tempo: na foto, Gilmour e o filho Jesse.