EU E MINHAS GAFES


Outra (rara) foto minha perdida na net. Foi durante um debate sobre cinema na CBN, no começo do ano. Participaram também o Marden Machado, o Paulo Biscaia e uma garota que eu não conhecia.

Lembro que me atrasei e já cheguei elogiando um filme que todos estavam detonando (Madrugada dos Mortos). Lá pelas tantas, um ouvinte manda a seguinte pergunta: "O que um filme precisa ter para ser bom?", ou algo que o valha.

Os outros deram suas respostas e eu, sem saber o que dizer, mandei na lata: "Ele não pode ser chato. Só isso!". No fim, ainda fiz um jabazinho do blog de reportagens e do Trajeto. Acho que nunca mais me chamam para nada. Uma pena, pois o estúdio deles é maneiríssimo.

Dá para ouvir o debate aqui.

ENVELHECER SEM AMADURECER


Tenho grande interesse pelo trabalho de mulheres cineastas (Rebecca Miller, Jane Campion, Antonia Bird, Miranda July, etc.). E estou me iniciando, tardiamente, na literatura do Philip Roth. Por essas e outras, Fatal, que passou ontem no Telecine, foi um prato cheio para mim.

Trata-se de uma adaptação da short novel O Animal Agonizante, assinada pela diretora espanhola Isabel Coixet. No elenco, só gente que eu curto - Ben Kingsley, Penélope Cruz, Dennis Hopper, Patricia Clarkson, Peter Sasgaard, Debbie Harry.

O livro é melhor? Ainda não li, mas deve ser. Aliás, sempre digo que os cartazes de adaptações deveriam vir com uma advertência: "Se você leu o livro, caia fora ou feche o bico. Já sabemos sua opinião".

De volta à Fatal. O filme mostra, entre outras coisas, como uma paixão pode mexer com a cabeça dos homens (mesmo os mais vividos). Também confirma a infantilidade masculina nas relações afetivas. Porque não temos meio termo. Ficamos entre a indiferença e o descontrole.

Buscar esse equilíbrio é o desafio. Ou vamos envelhecer sem amadurecer, como o personagem principal.

BICHO PEGANDO!



Dizem que foi a "melhor finalização do ano no MMA".

"Dá um Beijo na Boca Dele", diria Skylab.

LENHA PARA QUEIMAR


Não resisti e vi, ontem mesmo, This is It. E não é que o filme superou minhas expectativas? Algumas observações e destaques de bate-pronto:

— A série de apresentações que o Michael faria em Londres não era uma fuleiragem para faturar um trocados. Pelo contrário. O espetáculo, dirigido pelo coreógrafo Kenny Ortega (Xanadu, Dirty Dancing, High School Musical, etc.), tinha tudo para ser um dos maiores shows da história do pop.

— O time de apoio era fantástico! Dos músicos aos bailarinos, MJ estava cercado dos melhores.

— Michael dominava como poucos o próprio repertório. Sabia exatamente o que exigir dos músicos - e a emoção que devia tirar de cada canção. Sua performance de "Human Nature" é um dos pontos altos do filme.

— Ele era bizarro? Sim. Mas educadíssimo, bem-humorado e carinhoso com as pessoas. This is It humaniza o mito.

— Kenny Ortega é "o" cara. Acabo de descobrir que até a coreografia de Curtindo a Vida Adoidado é dele.

— Em vários momentos, a gente se esquece que o performer genial na tela é um sujeito de 50 anos. Que forma!

— Que voz! E olha que ele estava se poupando (como é natural em ensaios).

— Agora tenho minhas dúvidas se a temporada em Londres era mesmo um sacrifício para Michael. Pelo que se vê no filme, ele estava muito envolvido.

— Entrei no cinema preparado para ver um freak show e saí com a certeza de que o artista, apesar de tudo, não havia perdido sua essência. Trocando em miúdos, Michael Jackson ainda tinha lenha para queimar. Mostrar isso é o grande trunfo de This is It.

ESQUISITÃO


Não vou ver o Rogério Skylab, que toca hoje em Curitiba. Mas curto o trabalho dele faz tempo, desde sua primeira aparição no Jô, ainda na década de 90. De lá para cá, acho que ele foi ao programa pelo menos uma vez por ano.

Dublê de cantor, poeta, performer, funcionário público, humorista e embromador, Skylab é, acima de tudo, um outsider. O tipo de artista esquisitão que mereceria meu respeito só por desafinar o coro dos contentes. Sua música de gosto duvidoso, que já foi rotulada como "MPB trash", é só um detalhe do pacote.

Em vez de falar mais, sugiro o site, o blog e os vídeos. Abaixo, algumas "pérolas".

Imobiliza, imobiliza
Agora é porrada, agora é porrada
Dá na cabeça, dá na cabeça
Língua na nuca, língua na nuca
Valeu garoto, valeu garoto
Mão na bunda, mão na bunda
Ele vai bater, ele vai bater
Aproveita agora, aproveita agora
Dá um beijo na boca dele, dá um beijo na boca dele
Valeu garoto, valeu garoto
("Dá um Beijo na Boca Dele")

Outro dia
Eu fui ao show do Rappa
O que eles cantavam
Não entendia nada, nada, nada, nada!
(...) Sei, existe pobre

Polícia dá porrada
Mas o que eu gosto mesmo
É de chupar buceta
(...) Sei, há desemprego
PT, vudu e lama
Mas o que eu gosto mesmo é de chupar buceta
Cidade maravilhosa (maravilhosa!)

Cheia de encantos mil (encantos mil!)
("Show do Rappa")

Um agiota espera na porta da tua casa
Você vai continuar fazendo música?
Todas as gravadoras estão de portas fechadas
Você vai continuar fazendo música?
Até os alternativos debandam pro outro lado
(...) Tenta uma outra coisa, um curso de informática
Você vai continuar fazendo música?
("Você Vai Continuar Fazendo Música?")

Chico Xavier é viado, Roberto Carlos tem perna-de-pau.
E apesar de tudo, é tão comovente
A verdade explode na cara da gente
A verdade é crua, a verdade é nua
A verdade torce e a verdade estupra
A verdade é puta, a verdade é puta
("Chico Xavier e Roberto Carlos")

TRAILER RETRÔ (2) - WARRIORS - OS SELVAGENS DA NOITE, 1979

ELE VOLTOU PARA CONFUNDIR


Não espere ver informações biográficas em Alô, Alô, Terezinha!, que estreia sexta em Curitiba. Até porque o Google está aí para isso, certo?

Cru e urgente, o documentário de Nelson Hoineff sequer resvala na trajetória de Chacrinha. O foco é o programa de tevê, tratado como um microuniverso composto por três eixos: os artistas, os calouros e as chacretes.

As dançarinas, aliás, roubam a cena. Não à toa, vão ganhar uma série só delas, a ser exibida no Canal Brasil.

Há quem diga que o filme é sensacionalista, por explorar a imagem, um tanto miserável, de ex-calouros e chacretes. Não vejo dessa forma.

Hoineff quis capturar a essência do Velho Guerreiro, e para isso se apropriou de alguns de seus expedientes (o deboche, a incorreção política, a crueldade). Mais do que isso: buscou colocar na tela a visão que o apresentador tinha do Brasil. Um país plural, zoado, contraditório.

Um recorte, portanto. E, nesse sentido, Alô, Alô, Terezinha! cumpre seus objetivos. Inclusive o de confundir.

ÀS VEZES A GENTE ACORDA COM CADA MÚSICA NA CABEÇA... (4)

A PARAÍBA NÃO É CHICAGO


Meu disco do momento é véio: Marcos Valle, Vontade de Rever Você (1981).

Foi o primeiro trabalho dele no Brasil depois de cinco anos morando nos EUA. O resultado dessa vivência rendeu uma mistura caprichada de samba, bossa nova, baião, soul, funk e jazz.

Na ficha técnica, só feras dos estúdios. Leon Ware (colaborador do Marvin Gaye), Peter Cetera (da banda Chicago), Airto Moreira, Sivuca, Robertinho Silva, Laudir de Oliveira.

Nem é um de seus álbuns mais festejados, apesar de incluir o clássico "A Paraíba Não É Chicago". Mas vai fundo naquela atmosfera sexy e ensolarada da música carioca do fim dos 70, início dos 80. Reflete o desbunde tardio, o começo da abertura política, o flerte com o pop internacional...

Um tipo de som que talvez esteja grudado no inconsciente de quem passou a primeira infância nesse Rio pré-barra pesada. Interessou? Baixa aqui.

COISAS DO PLANTÃO


Olha lá eu, no fundão do auditório da Delegacia de Homicídios, esperando o início de uma entrevista coletiva. Era um domingo à tarde, dia seguinte de uma chacina, talvez a mais sinistra que já rolou por estas bandas.

Sobrou pro beque aqui, que estava de plantão. Logo eu, o especialista em amenidades. Mas até que dei conta do recado.

Quem achou essa foto foi o Thiago. Saiu no Fotojornalismo Curitiba, com crédito de Franklin de Freitas.

"AS FORÇAS DA ACOMODAÇÃO SÃO SEMPRE MAIORES"


Fiz uma matéria de página inteira sobre Alô, Alô, Terezinha!, documentário do Nelson Hoineff que investiga o universo do Chacrinha. Vai sair no domingo, na Outra Folha.

Foi a terceira vez que entrevistei o Hoineff, criador do Documento Especial e um dos meus gurus na profissão. Para variar, o papo acabou descambando para o estado das coisas na comunicação em geral. Segue um trecho (sobre o filme, falo já, já).

De onde vem a inovação que o Chacrinha colocou no ar? Era algo intuitivo?
Cem por cento intuitivo. Porque ele não tinha uma formação teórica. Naquela época, diga-se de passagem, ninguém tinha. A televisão era vista como uma coisa de segundo time, e até hoje continua assim. A televisão ainda se comporta como uma débil mental em relação às outras formas de expressão.

Desde que o conceito de correção política apareceu e se consolidou, a sensação é de que há um processo de "higienização", de "sanitarismo" nos meios de comunicação em geral. Você concorda?
Não há a menor dúvida disso. Só não acho que isso começou agora, sempre aconteceu. Felizmente, existem espasmos bem-sucedidos de renovação, tentativas de ir em direção contrária. Casos como o do Chacrinha, do Paulo Francis e do próprio Documento Especial. Mas esse processo de pasteurização é sempre mais forte, e vai ganhando cada vez mais adeptos. No fim das contas, a maior vítima é o espectador.

A sociedade quer esse padrão?
A sociedade não quer, ela é levada a isso. Porque esse padrão é apresentado como a única opção. O cardápio oferecido é muito estreito, porque a visão de quem faz é estreita. As forças da acomodação são sempre maiores. O cara não quer perder o emprego, não quer pensar. Esse projeto de uma tevê entorpecedora, generalista, que nivela tudo pelo gosto médio é realmente vencedor. E o que me encanta no Chacrinha é que ele pode ter perdido a guerra, mas ganhou algumas batalhas radicalizando na incorreção.

TRAILER RETRÔ (1) - ÚLTIMO TANGO EM PARIS, 1972



Seção nova no blog. Com alguns dos meus clássicos pessoais. E pra gente se lembrar do tempo em que os trailers não eram tão frenéticos.

LEMBREI DO ROLO


Tentei manter um podcast entre 2007 e 2008, o ROLO. Só com música, sem falação (até porque eu não tinha nada para falar naquela época). Mas dava uma preguiça...

Para piorar, deu um pau no site e todos os programas sumiram, bem como os comentários do pessoal. Tive de postar tudo de novo.

O legal é que inspirou, e deu título, a um conto do Márcio Reinecken, incluído no primeiro livro dele.

Ainda está lá, parado. São seis episódios. Se quiser ouvir (e até baixar), entra aqui.

PAIS E FILHOS


Nunca leio os best-sellers do momento. E isso não tem nada a ver com algum elitismo da minha parte. Se fosse assim, não curtiria um disco da Lady Gaga, ou um filme como Se Beber, Não Case.

É que livro exige um tempo maior. Então acabo me dedicando às obras, digamos, mais "intensas". Deve ser bobagem minha. Enfim...

Na verdade, quero contar que li O Clube do Filme, um desses títulos que a classe média se dá de presente. Meu pai ganhou, leu num voo e me indicou. Como acho importante dividir esse tipo de experiência com ele, resolvi encarar.

O autor, o crítico de cinema canadense David Gilmour, estava desempregado quando o filho adolescente começou a reprovar no colégio. Diante dos problemas, tomou uma decisão arriscada: deixou o garoto largar os estudos, com a condição de que os dois assistissem, juntos, a três filmes por semana.

O livro narra os três anos em que o tal Clube do Filme funcionou. E sabe que não é ruim? Meio superficial, e um tanto chato até a metade. Mas é mais um tijolo nessa discussão sobre a condição masculina nos dias de hoje.

Porque o cinema, pelo menos na minha leitura, é o de menos no livro. Poderia ser O Clube do Disco, dava na mesma. O barato, aqui, é a intimidade criada entre pai e filho - e as lições que se tira disso.

Como costumo dizer, a relação com a mãe beira o transcendente. O sujeito pode ter sido abandonado numa cesta, mas passa o resto da vida procurando quem o colocou no mundo.

O pai, não. O pai é facilmente substituído por outro. Nesse sentido, ser pai é uma "obra em progresso". Se o sujeito não estiver presente, dando aquela força sempre, dança.

Voltando ao livro, não duvido que pinte, em breve, uma adaptação para o cinema. Se for o caso, vai render uma Sessão da Tarde maneirinha...

Em tempo: na foto, Gilmour e o filho Jesse.