MEUS FILMES DO ANO


1. Melancolia
(de Lars von Trier, com Kirsten Dunst e Charlotte Gainsbourg)

2. Além da Vida
(de Clint Eastwood, com Matt Damon e Cécile De France)

3. Um Novo Despertar
(de Jodie Foster, com Mel Gibson e Jodie Foster)

4. A Pele que Habito
(de Pedro Almodóvar, com Antonio Banderas e Elena Anaya)

5. O Vencedor
(de David O. Russell, com Mark Wahlberg e Christian Bale)

6. Sentimento de Culpa
(de Nicole Holofcener, com Catherine Keener e Oliver Platt)

7. Todo Mundo Tem Problemas Sexuais
(de Domingos Oliveira, com Pedro Cardoso e Cláudia Abreu)

8. Inverno da Alma
(de Debra Granik, com Jennifer Lawrence e John Hawkes)

9. Fúria sobre Rodas
(de Patrick Lussier, com Nicolas Cage e Amber Heard)

10. Vejo Você no Próximo Verão
(de Philip Seymour Hoffman, com Philip Seymour Hoffman e Amy Ryan)

MEUS DISCOS DO ANO


INTERNACIONAIS

1. Destroyer – Kaputt

2. Friendly Fires - Pala

3. TV On The Radio – Nine Types of Light

4. Jamie Woon – Mirrorwriting

5. Theophilus London – Timez Are Weird These Days

6. Gotye - Making Mirrors

7. Buffalo Tom - Skins

8. Tahiti 80 - The Past, The Present & The Possible

9. Washed Out – Within and Without

10. Mastodon - The Hunter


NACIONAIS

1. Erasmo Carlos - Sexo

2. Junio Barreto - Setembro

3. Rubinho Troll - Stinkin Like a Brazilian

4. Lê Almeida - Mono Maçã

5. Kassin - Sonhando Devagar

6. Fábio Góes - O Destino Vestido de Noiva

7. mundo livre s/a - Novas Lendas da Etnia Toshi Babaa

8. Emicida - Doozicabraba e a Revolução Silenciosa

9. Rômulo Fróes - Um Labirinto em Cada Pé

10. Banda Uó - Me Emoldurei de Presente pra te Ter

PENSE NISSO!


Fui obrigado a resgatar a série Releases Inesquecíveis.

É natural nos querermos o melhor, principalmente qdo isso implica na questão financeira, e tbm no bem estar pessoal.

Porém, sempre devemos analizar a situção e os diferenciais que estamos a enfrentar. Estou escrevendo esse E-mail a vc, e não quero me estender muito.

Se você tem dinheiro pra comprar um Fusca ou tbm um Vectra, com qual carro vc ficaria? Quais o beneficios q ambos te ofereceriam, qual o custo beneficio, valeria a pena pagar menos pelo fusca, ou pagar mais pelo Vectra?

Nos deparamos no dia a dia com varios covers de THE DOORS, eu posso montar um super cover de THE DOORS e oferecer a vcs por um preco super irrisorio, porém, onde está o diferencial dele? Como posso acrescentar no valor moral e intelectual de seus Eventos e Estabelecimentos?

Pense nisso!

Uma banda reconhecida pelos Integrantes Vivos da banda THE DOORS original, como sendo a melhor banda cover da América Latina, não pode ser questionada por nós, pois quem compôs, gravou e executou as musicas originais por toda suas vidas ja deram esse Título!

Venho através deste lhe apresentar um pouco do trabalho da banda 5TO1, Cover Oficial Latino Americano do THE DOORS, reconhecimento este, dado pelos Remanescentes Ray Manzarek e Robby Krieger no encontro com os musicos em uma apresentação realizada no HSBC em São Paulo em 2008.

Confira o material da banda e conheça uma das únicas bandas covers do Brasil com reconhecimento dos músicos originais.

POTENCIAL


Isso de potencial não quer dizer nada. Você tem que realizá-lo. Qualquer bebê abandonado numa caixa de sapato tem mais potencial do que eu.

VI SHOWS: LUCAS SANTTANA E DO AMOR (AMBIENTAL, 26/8)


A ideia original era ver MV Bill, Emicida e outros menos votados no Master Hall. No entanto, uma gripe me impedia de enfrentar a maratona que é um show de rap em Curitiba. Os artistas se embaçam, a programação atrasa, a cerveja é cara... Sem contar as tretas.

Em julho, quando os Racionais tocaram no mesmo local, quase voou um sofá do camarote para a plateia. Eu mesmo, sem querer, derrubei bebida num cara do andar debaixo e por pouco não tomei porrada na saída. Por essas e outras, preferi me resguardar e acho que fiz bem, já que no dia seguinte o próprio Emicida reclamou de confusão via Tuíter.

No melhor estilo "classe média sofre", optei pela tranquilidade de assistir ao Lucas Santtana no Ambiental Bar. Ainda que não seja grande fã, acompanho o baiano desde o primeiro disco, quando o entrevistei para o Planeta Diário – digo, Gazeta do Povo. Mas pesou na decisão a informação de que sua banda de apoio, Seleção Natural, conta com três integrantes do grupo Do Amor (que conferi ao vivo em 2010 e curti bastante).

Aliás, a apresentação da última sexta-feira foi a terceira do Do Amor por aqui em poucos meses – e a segunda do Lucas. Enquanto isso, artistas que lançaram bons discos em 2011 (Rômulo Fróes, Criolo, Fábio Góes, etc.) continuam longe dos palcos locais.

BARRADA NO BAILE

Bronca de quem não manja nada de produção à parte, vamos ao que interessa. Chegamos (eu, Fer, Andressa) no Ambiental pouco antes da 0h30. Logo de cara, uma baixa: Andressa deixou a carteira de identidade em casa e foi sumariamente barrada na porta.

Na esperança de que ela voltasse (com a situação regularizada, claro), entramos no bar quando os músicos já estavam se ajeitando no palco. Além dos "três do Amor", a banda ainda tinha, nas programações eletrônicas, um careca que eu não conhecia e o multiinstrumentista Lucas Vasconcelos, da ótima dupla Letuce. Grata surpresa!

Mal a primeira música começou, outra boa notícia: Andressa estava de volta na área, bem como outros conhecidos gente fina (Enio, Matheus, Vinícius, Cristiano, Constance, Heitor). Na real, o lugar não estava cheio, longe disso. Mas como boa parte dos grandes shows que eu vi na vida foi um fracasso de público, não desanimei.

E nem poderia, já que os seis entraram em cena com todo o gás, colocando todo mundo para dançar. Passaram pelo rock, reggae, dub, funk (carioca, inclusive) com uma facilidade impressionante. Cheguei a pensar: "E ainda tem gente que prefere balada com DJ".

No meio do povo, um sujeito de cavanhaque e camisa do Sport Club do Recife parecia estar numa festa pela primeira vez. Como pulava, o doido! Lá pelas tantas, tentou, em vão, puxar umas meninas para dançar carimbó, ou algo que o valha. E não é que o danado conseguiu dar uns passinhos com a Andressa?

CADÊ O BAIANO?

O clima só ficou meio estranho quando o Lucas Santtana anunciou que os músicos Do Amor tocariam canções próprias. Até aí, tudo bem, já era esperado. Os cariocas assumiram o comando e a animação da turma continuou igual. O problema é que o baiano desceu do palquinho e nunca mais voltou! Deve ter ido comprar cigarro...

Se ao todo rolou uma hora e quinze de som, foi muito. Ninguém conseguiu esconder o sentimento de frustração – talvez nem os organizadores. Esperávamos um bailão sem hora para acabar e tivemos um "coito interrompido", como bem definiu o Matheus.

"Coisas da vida", diria Vonnegut. Nosso reality show continua na semana que vem, se a programação permitir. Alguma dica?

PS – A foto da vez é da Miriane Figueira. Se alguém mais quiser colaborar, fique à vontade.

VI SHOWS: KARINA BUHR, GENTILEZA, VENDO 147 (ESPAÇO CULT, 19/8)


A partir de agora, vou tentar comentar os shows que vejo por aí. A ideia é recuperar a cobertura "pós-evento", quase abandonada pela imprensa cultural de hoje em dia.

Em vez de vender os eventos dos outros, como a maioria dos meus colegas se limita a fazer, pretendo mostrar minhas impressões sobre o que já rolou. Mas, pelamordedeus, não esperem resenhas científicas (com set list, ficha técnica, nomes dos músicos)!

Dito isso, lá vai o primeiro esforço da série batizada de "Vi Shows" em referência ao título bisonho da versão que o Hanoi-Hanoi fez para "Vicious", do Lou Reed. A foto é do Enio Jr.

Costumo dizer que faço parte de uma "gangue de show", com a Fernanda, a Andressa e convidados eventuais. Juntos, já nos divertimos horrores (e tocamos o terror) em vários muquifos desta recatada província. Se bobear, fazemos bagunça até em recital de piano.

No entanto, estávamos separados desde o show do mundo livre s/a, em maio. Por isso, o primeiro programa meia-boca que aparecesse seria uma boa oportunidade para reunir a turma. Resumindo: nenhum de nós é grande fã da Karina Buhr, mas as meninas curtem a banda Gentileza e a noitada no Espaço Cult parecia, para mim, uma ótima forma de fugir do papo furado nos botecos da vida.

Assistimos ao último capítulo de Insensato Coração e pouco antes da meia-noite já estávamos no Largo da Ordem. Fiquei positivamente surpreso com o tamanho amplo do Espaço Cult e, mais ainda, com o início da maratona em horário razoável.

PUNHETAGEM

Até gostei da punhetagem instrumental dos baianos do Vendo 147. Som pesado, clone drum (dois bateristas e um único bumbo), influência de stoner rock... Mas sempre fico com a sensação de que a maioria das novas bandas instrumentais brasileiras tem medo de se arriscar nos vocais. Como se fosse mais fácil não estruturar canções ou escrever letras.

Seja como for, fiquei ouvindo aquilo e imaginando os cinco num flerte com a tradição musical dos trios elétricos de Salvador. Refiro-me aos primórdios do gênero, quando não havia cantores nos grupos que percorriam as ruas da cidade. O resultado seria algo como "Dodô e Osmar from hell" e levaria a banda a outro patamar criativo.

Também foi engraçado ver alguns indies encarando aquilo como um show de metal. Os meninos batiam cabeça discretamente e tiravam sarro das namoradinhas que não estavam curtindo a barulheira. Acho que não tiveram a manha de ver o Slayer no Master Hall (um dos grandes eventos do ano em Curitóba).

OKTOBERFEST

O lugar já estava razoavelmente preenchido quando o (a?) Gentileza entrou em cena. Entre os incontáveis grupos pós-Los Hermanos curitibanos, o time liderado pelo vocalista/violonista Heitor é o único que me agrada. Principalmente no palco, onde costuma fazer um show divertido.

Mesmo não conseguindo memorizar uma música sequer do sexteto, sempre acabo contagiado pela animação da plateia. Me sinto no pavilhão da Oktoberfest em Blumenau, ainda que o povo identifique influências musicais do Leste Europeu no som deles (será?). Mas eu gostaria mesmo é que fossem mais freaks, anárquicos, frankzappianos.

Naquela altura do campeonato, já havia travado contato com vários conhecidos, especialmente gente do Tuíter (Eder, Priscila, Ariana, Enio, Matheus). Todos, como eu, desconfiados do potencial ao vivo da estrela da noite uma prova de que o primeiro disco-solo da Karina Buhr não é uma unanimidade fora do eixo São Paulo-Recife.

RECONCILIAÇÃO

Quando o show principal começou, corri para a frente do palco. Estava louco para ver de perto o Edgard Scandurra, integrante da banda de apoio da pernambucana (com o trompetista Guilherme Guizado e outras figuras que não reconheci).

Um dos heróis da minha adolescência, o guitarrista havia caído no meu conceito nos últimos anos, graças às tretas que deram fim ao Ira!. Como alguém disse por aí, "Se o Nasi é realmente o filho da puta dessa história, ele está enganando a gente muito bem".

O fato é que, logo na primeira música, rolou uma "reconciliação" com o antigo ídolo. O cara estava tão feliz, tão animado, que deu gosto de vê-lo tocar. Juro que fiquei emocionado. E pensar que o Fernando Catatau, do Cidadão Instigado, também faz parte da banda (infelizmente, não veio dessa vez).

Mas e a Karina? Vestida com um macacão de paetê dourado, a pernambucana já iniciou a apresentação jogada no chão. Era o sinal de que veríamos um espetáculo de rock and roll, e não um sarau universitário. Dito e feito.

Em pouco menos de uma hora, La Buhr (adoro essas expressões antigas!) dançou, pulou, correu, trepou num ferro, se enrolou no microfone, "foi pra galera"... Se cantou direito, não sei. Mas lavou a alma de quem não aguenta mais a fofura das tiês, tulipas e afins.

Resumo da ópera: a moça pegou todo mundo desprevenido, para o bem e para o mal. Alguns acharam a atuação forçada, fake. Eu prefiro encarar como performática. Para quem já sofreu durante duas horas num teatro, imobilizado, assistindo ao bom-mocismo do Marcelo Jeneci, a zoeira de Karina e sua turma foi simplesmente redentora.

MEUS DISCOS DO SEMESTRE


INTERNACIONAIS

1. Destroyer - Kaputt

2. TV on the Radio - Nine Types of Light

3. Friendly Fires - Pala

4. Buffalo Tom - Skins

5. Tyler, The Creator - Goblin

6. R.E.M. - Collapse into Now

7. Jamie Woon - Mirrorwriting

8. Cornershop - Cornershop and the Double 'O' Groove Of (featuring Bubbley Kaur)

9. Toro y Moi - Underneath the Pine

10. Tahiti 80 - The Past, the Present & the Possible

11. The Weeknd - House of Ballons

12. Liturgy - Aesthethica


NACIONAIS

1. Rubinho Troll - Stinkin Like a Brazilian

2. Lê Almeida - Mono Maçã

3. La Carne - Acústico Mundo Livre

4. Romulo Fróes - Um Labirinto em Cada Pé

5. Rogério Skylab - Skylab X

6. Domenico Lancelotti - Cine Privê

7. Criolo - Nó na Orelha

8. Banda Uó - Me Emoldurei de Presente para te Ter


BONS DISCOS DE 2010 (QUE EU SÓ OUVI EM 2011)

1. Twin Shadow - Forget

2. Skunk Anansie - Wonderlustre

3. Kvelertak - Kvelertak

4. Gang do Eletro - Volume Beta

5. Letuce - Couves

6. Fino Coletivo - Copacabana

Veja também Meus Discos de 2010.

TODO PAPAI TEM PINGUINS SEXUAIS


É possível ser feliz no amor - e livre no sexo? Esta é a questão central de Todo Mundo Tem Problemas Sexuais, outro bom exemplar do cinema "caseiro" do Domingos Oliveira.

Como é de praxe em sua trajetória, a ordem aqui é reunir os amigos, filmar em apartamentos (ou na rua mesmo) e, acima de tudo, gastar pouquíssimo dinheiro. A diferença, dessa vez, é que se trata da adaptação de uma peça de teatro, com trechos dos ensaios e do próprio espetáculo levados à tela.

Ainda assim, o resultado é tão precário, tecnicamente falando, que chegou a causar estranhamento na plateia do Cinesystem Curitiba. Ou melhor: nos poucos incautos que certamente compraram o ingresso pensando em ver uma globochanchada na linha de A Mulher Invisível, Se Eu Fosse Você e afins.

Mas os seis corajosos espectadores que restaram na sala após os dez primeiros minutos de projeção (o blogueiro não conta, pois é fã do diretor) foram recompensados. Porque o filme tem um humor desbocado, chulo e popular à moda antiga, ao mesmo tempo em que levanta temas delicados sobre a vida a dois.

Uma fórmula que, no entanto, só funciona graças à presença do Pedro Cardoso. Não o da televisão, sempre meio contido - e sim o do teatro. Quem já viu o cara em cena sabe do que estou falando. Poucos atores brasileiros conseguem ser engraçados e sensíveis na mesma medida. PC é um deles, e por isso está perfeito em mais esta pérola despretensiosa do mestre Domingos.

PS - No dia seguinte, levei as crianças para ver Os Pinguins do Papai. Melhor do que eu esperava, a comédia-família surpreende pelo tom nonsense e por revelar um Jim Carrey ainda inspirado. Quem tem filhos pequenos pode ir sem medo de errar.

É CHATO


Woody Allen é o meu cineasta predileto. No entanto, confesso: gosto menos dos trabalhos em que ele vai fundo no realismo fantástico (ou mágico, como queiram).

Até curto quando o expediente é usado para o humor nonsense, como em Contos de Nova York. Mas o sentimentalismo de A Rosa Púrpura do Cairo, por exemplo, não faz a minha linha.

Por essa razão extremamente pessoal, Meia-Noite em Paris já seria um forte candidato à lista dos títulos dele que eu só vejo uma vez. Um pressentimento que se confirmou logo aos 20 minutos da projeção.

É quando o alterego de Allen (dessa vez, interpretado por um Owen Wilson menos displicente do que o de costume) se transporta para a Paris dos anos 20 e passa a interagir com a intelectualidade da época. Figuras como Picasso, Fitzgerald, Hemingway, Dalí, etc. Todos propositalmente caricatos - e chatíssimos.

Essa chatice se alastra por toda a a história, inclusive pelas (poucas) piadas. Acrescente aí uma dose de propaganda turística da capital francesa, outra de romantismo clichê e pronto: temos um filme suspostamente sofisticado, feito sob medida para o público "inteligente" se sentir ainda mais culto na sala escura.

Fico esperando a volta do Woody Allen adulto, provocador, agressivo. Porque o de Meia-Noite em Paris, para o meu paladar, precisa urgentemente de um chacoalhão.

VOCÊ É O MAL DA IMPRENSA


É um erro grave imaginar que o dr. Patrão domina o jornal. Ou que os anunciantes fazem o que querem do dr. Patrão e jornalistas.

Este duo tem, claro, alguma influência. Mas quem mais manda na mídia é você, meu caro leitor, ou espectador. E você, consumidor, é o mal da imprensa.

Editores quebram a cabeça diariamente para agradá-lo. O mal da imprensa é que ela não ousa desagradar o leitor. Seu maior defeito é o eufemismo.

Paulo Francis em Waaal - O Dicionário da Corte.

POBRE? NEM TANTO


Pobre Halim! Pobre? Nem tanto. Um guloso de amor carnal: fez da vidinha na província uma festa de prazeres.

Milton Hatoum, em Dois Irmãos.

SEM MEDO DO RIDÍCULO


Eu sabia que Um Novo Despertar seria do tipo oito ou oitenta, ame ou odeie. Afinal, o que esperar de um filme em que o Mel Gibson passa o tempo todo com um fantoche na mão?

É isso mesmo. Aqui, o astro intolerante e beberrão vive um empresário em profunda depressão que acaba criando, sem querer, um metódo bisonho de autoanálise. E, cá entre nós, ninguém melhor do que um maluco para interpretar outro.

Ao se anular, e deixar um boneco em forma de castor falar por ele, Walter Black recupera a força para se relacionar com a família e salvar sua companhia da falência. Como se não bastasse, também vira um "case" midiático nacional.

Mas o que parece ser apenas uma lição de vida barata, no estilo autoajuda, ganha contornos mais dramáticos, graças ao roteiro bem centrado de Kyle Killen (outro talento promissor egresso da tevê). Revela-se, então, uma história sobre as dores que nos acompanham. Ou melhor: sobre como administrar essas dores.

Sem medo do ridículo, a diretora Jodie Foster (e mulher de Gibson na trama) compensa sua narrativa convencional com sensibilidade na condução de atores. No entanto, cabe ao espectador deixar o cinismo de lado e embarcar nessa fábula aparentemente absurda. Do contrário, vou logo avisando, periga você se irritar e sair no meio da sessão...

PS - Meu primeiro "pê ésse" da vez vai para a incrível Jennifer Lawrence (20 aninhos e um futuro brilhante pela frente).

PS2 - É incrível como todos os filmes são comédias para os curitibanos. Acho que já pagam o ingresso rindo. Ontem, gargalharam numa cena de tentativa de suicídio!

OUTRAS CAGADAS QUE OS HOMENS FAZEM


Nada como assistir a uma comédia escrachada, do gênero "homens fazendo merda", logo no primeiro dia de férias. Pena que Se Beber, Não Case 2 deixa muito a desejar.

Não que eu estivesse esperando uma obra-prima. Pelo contrário. Se fosse só uma versão turbinada da primeira parte, já estaria de bom tamanho. Mas o orçamento mais gordo não se refletiu em risadas.

O resultado é um filme movimentado, bom de se ver. Porém com duas ou três piadas realmente engraçadas. Culpa do roteiro formulaico, com as mesmíssimas soluções da história anterior.

Resta a atmosfera barra pesada, com sexo, armas e drogas à vontade - algo surpreendente para um blockbuster tão aguardado. E, como disse minha prima, as fotos dos créditos finais são melhores (espero que isso não tenha sido um spoiler).

PS - Mesmo engrenando apenas na metade, Passe Livre, dos geniais irmãos Farrelly, ainda é a minha comédia preferida de 2001 até aqui. Com Esposa de Mentirinha (que título tosco!) em segundo lugar.

O RIO DE JANEIRO CONTINUA TRASH


Não é de hoje que o Brasil entrou no mapa da cultura pop internacional. Mas não deixa de ser curioso o fato de que as duas maiores estreias de 2011 nos cinemas mundiais são produções ambientadas no Rio de Janeiro.

Juntas, a animação Rio e Velozes e Furiosos 5 - Operação Rio arrecadaram mais de US$ 110 milhões apenas nos primeiros dias de exibição no circuito americano. Os dois filmes, no entanto, mostram facetas radicalmente diferentes do nosso principal cartão-postal.

Enquanto o primeiro romantiza a cidade (e esbarra na propaganda turística), o outro praticamente não traz os clichês tropicais de costume. Muito pelo contrário. Em cartaz a partir de hoje no país, Velozes 5 se concentra no lado trash - pobre e violento - da capital fluminense.

Com exceção de uma ou outra tomada aérea "bonita", o longa do diretor Justin Lin mostra favelas gigantescas, barracões escuros, feiras bagunçadas e ruas muito sujas. E os vilões, claro, são empresários e policiais corruptos. Ou seja: os clichês, aqui, são os da cinematografia nacional recente, pós-Cidade de Deus.

Neste quinto episódio da franquia, o trio formado por Dominic (Vin Diesel), Brian (Paul Walker) e Mia (Jordana Brewster, filha de brasileira) está foragido da polícia americana e vem parar no destino preferido de nove entre dez fujões do cinema. Escondidos numa "comunidade" (para usar o termo politicamente correto), eles arquitetam um golpe milionário que pode garantir sua liberdade em algum paraíso sem acordo de extradição com os EUA.

O alvo é o gângster Reyes (Joaquim de Almeida), que guarda US$ 100 milhões em muquifos espalhados pela cidade. Como os três não têm condições de realizar o roubo sozinhos, escalam uma equipe multidisciplinar (e multirracial), formada por especialistas em vários tipos de trambiques, alguns deles já conhecidos do público da série.

Mas o grupo tem outro obstáculo pela frente: o superagente do FBI Hobbs (Dwayne "The Rock" Johnson), uma verdadeira máquina de perseguir foragidos. O personagem, por sinal, é um show à parte. De tão caricato, parece saído de um desenho do Cartoon Network - o que só reforça o lado cômico de um filme cujo gênero poderia ser definido como "chanchada de ação".

Por isso, não vale a pena teorizar sobre o retrato negativo (e, muitas vezes, irreal) do Brasil apresentado em Velozes e Furiosos 5. Deixemos essa tarefa para quem levou a sério o verniz social contido em Tropa de Elite, nosso blockbuster de pancadaria por excelência. Aliás, bem que o Capitão Nascimento podia pegar umas dicas com Dominic e companhia. Eles, sim, sabem o que fazer com o vilão no final da história.

PS - Em vez de Sérgio Mendes ou samba-farofa para gringo ouvir, tem MV Bill, D2 e Turbo Trio na trilha sonora.

NÃO SE ILUDA


Hector Eles são estúpidos demais para usar o poder que têm.

Shotover
Não se iluda: eles o usam. Nós matamos o melhor de nós mesmos, todos os dias, para aplacá-los. Saber que toda essa gente está aí para frustrar as nossas frustrações nos impede de ter aspirações.

Bernard Shaw, em Heartbreak House.

UM GALÃ SEM PEGADA?


Pegue o galã do momento. Acrescente dois vencedores do Oscar. Tempere com um bicho fofo. Coloque tudo numa história romântica e de época, baseada em um best-seller internacional. Taí a receita de Água para Elefantes, em cartaz a partir de hoje nos cinemas do país.

Trata-se da primeira grande produção estrelada por Robert Pattinson depois do estouro da saga Crepúsculo. E também um teste para o ator, que aqui desempenha um papel mais complexo, adulto. A boa notícia para as fãs é que o rapaz se sai razoavelmente bem com seu bronzeado natural (ou seja, sem a maquiagem pálida do vampiro Edward).

Versão do livro homônimo da canadense Sara Gruen, o filme do diretor Francis Lawrence (Eu Sou a Lenda) narra a jornada de Jacob Jankowski. Descendente de poloneses, ele estuda para ser veterinário durante a Depressão americana. Quando seus pais morrem, repentinamente, o rapaz fica na miséria e acaba acompanhando um circo.

Um circo à moda antiga, diga-se. Com direito a animais, atrações bizarras, jogos de azar e até uma tenda "paralela" com shows eróticos. Algo totalmente diferente dos espetáculos politicamente corretos e higienizados da era Cirque du Soleil.

A magia, no entanto, só existe embaixo da lona. Nos bastidores, as condições de trabalho e sobrevivência são insalubres. As pessoas trabalham em regime de semi-escravidão, enquanto os animais sofrem todos os tipos de maus tratos. É nesse ambiente contraditório que o personagem vai amadurecer na marra.

Educado e gentil, Jacob logo chama a atenção do dono da companhia, August (Cristoph Waltz, o nazista poliglota de Bastardos Inglórios, papel que lhe deu o Oscar de melhor ator coadjuvante no ano passado). Uma figura ao mesmo tempo fascinante e cruel, que trata com tirania até mesmo sua companheira, Marlena (Reese Witherspoon, premiada com a estatueta dourada por Johnny e June).

Obviamente, inicia-se um triângulo amoroso que não vai acabar bem. Ou melhor: um quadrado, já que lá pelas tantas surge uma elefanta no caminho dos protagonistas. Rosie é o nome da paquiderme, estrategicamente inserida na trama para levantar a questão dos direitos dos bichos (causa defendida pela autora do livro).

De resto, não há muito o que se dizer sobre Água para Elefantes - um filme todo "certinho" do ponto de vista técnico, porém pouco empolgante. A começar pelo próprio romance entre Jacob e Marlena, que não pega fogo em nenhum momento. Como em Crepúsculo, Pattinson fica novamente devendo. Não como ator, mas no quesito pegada.

CURSINHO INTENSIVO DE HUMILDADE


O realismo sempre foi uma das grandes marcas dos quadrinhos da Marvel Comics. Seus personagens são indivíduos comuns, que ganham superpoderes por algum motivo explicado pela ciência - mas continuam tendo de lidar com os problemas e dilemas típicos de qualquer mortal. É assim com Homem de Ferro, Homem-Aranha, Hulk, X-Men, Demolidor, etc.

Uma rara exceção é Thor, cuja adaptação para o cinema estreia amanhã no circuito brasileiro. Inspirado na mitologia nórdica, o Deus do Trovão se divide entre a Terra e uma dimensão paralela que transcende a compreensão humana. Um universo, convenhamos, bem mais difícil de ser transportado do papel para a tela.

Difícil, porém possível. Graças a um roteiro fiel à história original e toneladas de efeitos especiais de ponta, o filme cumpre corretamente a tarefa de apresentar o herói. E vai além, deixando ganchos importantes para Os Vingadores, longa que vai reunir alguns dos principais personagens da Marvel em 2012.

Com Chris Hemsworth (de Star Trek) no papel principal, Thor concentra boa parte de sua ação no reino mágico de Asgard, onde o filho de Odin se prepara para herdar o trono. A transição, no entanto, não acontece como o previsto. Arrogante e impulsivo, o loirão põe em risco seu povo e perde a coroa para o irmão, Loki (Tom Hiddleston).

Banido e desprovido de poderes, ele vai parar no deserto do Novo México. Lá, conhece a cientista Jane (Natalie Portman) e faz uma espécie de cursinho intensivo de humildade. Ou seja: está pronto para retomar sua missão épica e salvar os asgardianos da ameaça de seus inimigos milenares, os Gigantes de Gelo.

Essa redenção simplista é o ponto fraco de uma produção que prometia um pouquinho mais de profundidade. Afinal, foi dirigida pelo inglês, de formação "shakespeareana", Kenneth Branagh, cujo currículo inclui uma versão intensa e eletrizante de Frankenstein (estrelada por Robert De Niro). Aqui, pelo visto, ele teve de fazer concessões visando à audiência infantil.

Thor, portanto, não se enquadra no rol das adaptações de quadrinhos capazes de encantar os adultos leigos no assunto. Para essa fatia do público, o filme talvez funcione apenas como um concurso de cosplay - ou de fantasias do Hotel Glória, se você é do meu tempo.

DESENHO COM DATA DE VALIDADE


A nova empresa de animação Illumination Entertainment parece já ter encontrado um nicho de mercado: os desenhos para as crianças pequenas. Foi assim com seu primeiro projeto, o bem-sucedido Meu Malvado Favorito (2010), cuja principal marca era justamente deixar de lado o humor esperto e as referências pop que os pais tanto curtem em títulos como Shrek e Monstros vs. Alienígenas.

Menos de um ano depois, a companhia volta a bater nessa tecla, dessa vez com Hop - Rebelde Sem Páscoa, que estreia hoje no país. Espécie de "Alvin e os Esquilos com coelhos", a produção combina personagens animados com atores de carne e osso para contar uma história completamente ingênua. O problema é que o filme parece ter sido feito a toque de caixa. E não deve durar muito na memória dos pequeninos (quanto mais na dos pais).

Com direção de Tim Hill (o mesmo de Alvin), Hop começa na Ilha de Páscoa, onde o pequeno Junior é preparado para substituir o pai, o próprio Coelho da Páscoa, na missão de fabricar e distribuir doces. Enquanto isso, em Los Angeles, um menino chamado Fred cresce com a certeza de que um dia viu o comedor de cenoura deixando uma cesta com chocolates na porta de sua casa

Vinte anos depois, Junior quer ser baterista profissional - e foge para Hollywood em busca da fama. Já Fred (James Mardsen, de Encantada), desmotivado para o trabalho, é pressionado pelos pais a amadurecer na marra. Os dois acabam se cruzando e, juntos, "aprontam as maiores confusões", como diria o locutor dos comerciais da Sessão da Tarde.

Como em Alvin, Zé Colmeia, Garfield e outras produções do gênero, os bichinhos nem sempre casam direito com os personagens humanos. Não à toa, as melhores sequências do filme se passam na fábrica de doces, com seus pintinhos operários e engenhocas no estilo Willy Wonka. O destaque, por sinal, fica por conta do pinto-chefe, Carlos, o mau-humorado braço direito do Coelho da Páscoa.

Mas tanta cor e fofura não compensam o roteiro preguiçoso e a atuação infantilizada (no pior sentido do termo) de Mardsen. Resta fazer o teste com quem realmente interessa. Se as crianças saírem do cinema já pensando em lanchar, é porque Hop tem mesmo uma data de validade: o domingo de Páscoa.

ENQUANTO SEU LOBO NÃO VEM


As chamadas na tevê de A Garota da Capa Vermelha avisam que o filme é "da mesma diretora de Crepúsculo". Porém, se os marketeiros fossem mais diretos, o apelo seria: "Calculadamente parecido com Crepúsculo". Em cartaz a partir de amanhã no Brasil, a nova versão de Chapeuzinho Vermelho é um prato cheio para os fãs da saga teen vampiresca - mas pode causar uma certa indigestão nos maiores de 16 anos.

Aqui, a cineasta Catherine Hardwicke e o roteirista David Leslie Johnson (do ridículo A Órfã) transportam a personagem para uma vila sombria e medieval. A expressiva Amanda Seyfried (de Mamma Mia!) é a protagonista, Valerie, cobiçada por dois rapazes. Por imposição da família, ela deve se casar com o abastado Henry (Max Irons). No entanto, seu coraçãozinho bate mesmo pelo pobretão Peter (Shiloh Fernandez).

Se esse fosse seu único problema, tudo bem. Mas um lobisomem que ronda o povoado há gerações volta a atacar, e a moça se vê no centro da confusão. Como se não bastasse, um padre maluco e caçador de bestas (vivido por Gary Oldman) garante que o bichão é, na verdade, um morador do local. Valerie, então, começa a duvidar de todos que a cercam, inclusive dos membros de sua família.

Além do triângulo amoroso juvenil e da presença sobrenatural, A Garota da Capa Vermelha guarda outras semelhanças com Crepúsculo. Os diálogos são empolados, a direção de arte é cafona e a fotografia não vai além da cosmética dark. Para piorar, a trilha sonora moderninha, que deveria criar um contraponto com a ambientação retrô, acaba bagunçando ainda mais o coreto.

A história só cresce nos últimos 15 minutos, quando ganha contornos psicanalíticos - e deixa o espectador adulto com a sensação de que o projeto original era realmente interessante. Pena que o público-alvo seja tão bobinho. Ainda assim, fica uma aviso para os pais: o filme tem algumas sequências violentas e sensuais, não muito indicadas para os pré-adolescentes.

MULHERES NÃO MACHUCAM?


Da inesgotável série Releases Inesquecíveis.

Mulheres não machucam? Sugestão de Pauta.

(...) ‏"Femear é a feminilidade e a fertilidade das artes, a sutilidade e a força de cada voz, a semente que desabrocha em cada flor e canto".

Femear é uma palavra inventada para expressar o sentido inverso e proporcional a "machucar". Machucar vem etmologicamente da palavra "macho, viril, varão". No entanto, mulher não é macho para machucar, mulher tem um jeito próprio para "sofrer danos" e "provocar danos".

O Projeto Femear é a reunião de canções compostas pela pesquisa de XXXXX e parcerias, com arranjos e execuções de XXXXX. São 14 músicas, 7 cantoras, 3 países e 1 conceito.

(...) Financiamento Solidário

O Projeto Femear será lançado exclusivamente pela internet e o objetivo é que os internautas doem recursos para a montagem do espetáculo Femear, o qual reunirá todas as cantoras participantes do projeto num show ao vivo.

A idéia é que a valorização do trabalho artístico realizado seja numa lógica de cooperação e solidariedade. Ou seja, a visão é que o público se apaixone pelas cantoras, pelas canções e pelo projeto e que queiram cooperar mutuamente para conseguir reuni-las num show as co-produzindo e co-financiando.

O ESPECTRO


Todo homem está sob o poder de seu espectro
Até que chegue a hora
Em que sua humanidade desperta
E lança seu espectro no lago


William Blake em The Book of Los.

FALTOU FUNK


Com o cacife de quem comandou o filme mais assistido no mundo em 2009 (A Era do Gelo 3), o brasileiro Carlos Saldanha se viu autorizado a puxar a brasa para a própria sardinha. E desfrutou dessa liberdade muito bem, como se pode conferir em Rio, uma das animações mais bonitas, visualmente falando, já produzidas pelos estúdios americanos.

Em cartaz a partir de hoje, o desenho também é o maior lançamento da história da 20th Century Fox no país. Uma estratégia ousada, que inclui a exibição em mil salas (em cópias tradicionais e 3D) e uma campanha publicitária onipresente. Até a prefeitura carioca entrou no embalo, bancando uma ala inteira da escola de samba Salgueiro dedicada aos personagens.

Rio começa com um balé de pássaros, que rapidamente são caçados por traficantes de animais silvestres. Entre os capturados está o protagonista, Blu, uma arara-azul bebê que ainda não aprendeu a voar. Seu destino é uma cidade gelada dos EUA, onde ele felizmente recebe um tratamento de "gente" por parte de sua dona, Linda.

Sua rotina pacata é interrompida com a chegada de Túlio, um biólogo brasileiro que quer levá-lo ao Rio de Janeiro, para cruzar com a última fêmea da espécie. Acompanhado de Linda, ele chega à cidade em plena movimentação carnavalesca - com direito a dicas das aves "malandras" do pedaço e foliões sambando com pouca roupa no meio da rua.

Logo depois que Blu conhece a arara Jade, o pior acontece. Os dois são sequestrados por contrabandistas e vão parar num barraco de favela, onde centenas de outros pássaros estão engaiolados, prontos para serem vendidos. E o casal que até então não tinha química terá de superar suas diferenças para sobreviver.

O choque cultural, portanto, é o tema central de um filme que apresenta duas visões do Brasil. De um lado, há a paixão (e uma certa nostalgia) de Saldanha, que concebeu e dirigiu o projeto. Do outro, os inevitáveis estereótipos tupiniquins que fazem parte do imaginário dos americanos responsáveis pelo roteiro.

Sendo assim, o Rio de Janeiro romantizado da tela não chega a incomodar os nativos. Pelo contrário. Os cenários são tão caprichados que os adultos até ignoram os clichês, as piadas fraquinhas e o ritmo meio morno de parte da história. O único senão é a constrangedora trilha sonora de Sergio Mendes - uma mistura de Broadway com batucada para gringo ouvir. Faltou mais funk nessa receita (e, pensando bem, de modo geral).

UM ABSURDO!


Fúria sobre Rodas é um absurdo. Uma mistura nonsense de violência, armas, álcool, perseguições automobilísticas, mulheres nuas, caipiras americanos, magia negra... E tudo isso em 3D!

Dirigido por Patrick Lussier (de Dracula 2000 e do remake de Dia dos Namorados Macabro), o filme traz o endividado Nicolas Cage como protagonista. Sempre à vontade no papel de canastrão, o astro vive Milton, um ex-presidiário sedento por vingança. Sua filha foi assassinada pelo líder de uma seita satânica, que agora pretende sacrificar a neta dele.

A bordo de um carrão antigo e acompanhado de uma garçonete gostosona (Amber Head, de Zumbilândia), o personagem, sem muito papo, inicia uma trilha sangrenta em direção ao líder do grupo (Billy Burke, da saga Prepúcio, digo, Crepúsculo). Mas logo descobrimos que Milton não saiu exatamente de uma penitenciária - e sim do quinto dos infernos!

Isso explica sua indestrutibilidade, explorada em sequências esdrúxulas e bizarras. Em uma delas, só para se ter uma ideia da maluquice, o "motorista fantasma" mata uma penca de fanáticos com uma mulher pelada no colo, enquanto bebe uísque direto da garrafa. Inacreditável.

Vale destacar também a participação do figuraça William Fichtner. Conhecido do público pela série de televisão Prison Break (e coadjuvante em inúmeras produções de Hollywood), o ator rouba a cena na pele do misterioso "Contador". Bem que poderiam fazer um filme só dele.

Resumindo, Fúria Sobre Rodas é um divertido trash de luxo, no melhor sentido que o termo pode ter. Ou seja, traz todos os elementos caros ao gênero, mas com um acabamento, digamos, profissional. Altamente indicado para adolescentes espinhentos - e marmanjos que ainda guardam um pouco de sua porção juvenil.

Sobre a versão em 3D, uma boa notícia: este é um dos raros casos em que o formato realmente funciona. Ponto para o diretor, que já havia utilizado a tecnologia em Dia dos Namorados Macabro e deve ir além em seus próximos projetos (uma refilmagem de Hellraiser e o enésimo capítulo de Halloween).

PS - A trilha sonora também é o bicho, com músicas de T.Rex, Peaches, Raveonettes, Unkle, Everlast.

TRABALHO FINAL DO CURSO DE CINEMA


Talvez seja a ressaca do Oscar, mas ando com uma preguiça mortal de dar meus breves pitacos sobre cinema aqui no brógui. De qualquer forma, o trampo no jornal continua. Então segue o texto (mais "formal") que saiu hoje na Fôia.

Uma história forte, muitas vezes, salva um filme fraco. É o caso de Vips, que estreia hoje em circuito nacional. Produzido pela O2 (empresa de Fernando Meirelles) e dirigido pelo estreante Toniko Melo, o longa tem uma concepção tão simplória que chega a constranger em alguns momentos. Mas consegue prender o espectador graças às situações improváveis vividas pelo protagonista.

Inspirada no livro Vips - Histórias Reais de um Mentiroso, de Mariana Caltabiano (que também vai virar documentário), a produção narra as desventuras do estelionatário Marcelo Nascimento - interpretado por Wagner Moura. Atualmente cumprindo pena, ele virou notícia, há dez anos, quando tentou se passar por um dos donos da companhia aérea Gol.

Seu histórico de farsas, no entanto, começa bem antes disso. Criado apenas pela mãe, Marcelo é retratado como um rapaz esquisito e problemático, que sonha em ser piloto de avião, a exemplo do pai ausente. Para alcançar seus objetivos - não muito claros-, ele começa a contar mentiras e fingir ser outras pessoas. Até perder a noção de quem realmente é.

E é justamente nessa trajetória prévia que o filme se concentra, deixando o golpe mais notório para a última meia hora de projeção (o que torna o título Vips um tanto quanto frouxo). Ainda assim, trata-se de uma decisão acertada, pois o período em que Marcelo trabalha como piloto do tráfico de drogas na fronteira do Brasil com o Paraguai rende as melhores cenas do longa.

Outro destaque é o próprio Wagner Moura. Apesar de soar excessivo em algumas passagens, o ator consegue se manter num registro interessante (ou ao menos digno dos intérpretes que não se acomodam num único tipo). O mesmo não pode ser dito do diretor e sua equipe, que apostam em soluções básicas e convencionais do começo ao fim. O resultado é um filme com cara de trabalho final do curso de cinema.

Nesse sentido, Vips se compara ao recente Bruna Surfistinha. São duas produções nacionais, sobre personagens marginais e que miram no grande público - mas o subestimam ao optar por uma linguagem que fica entre a novela e o comercial de tevê. Será que somos tão toscos assim?

ENTREVISTA: LETUCE


Aqui vale uma introdução. Uma das atrações do Grito Rock de Curitiba, o Letuce (RJ) é uma "banda de casal" formada pelo multiinstrumentista Lucas Vasconcellos (ex-Binário) e a cantora Letícia Novaes (que ainda ataca de atriz, comediante, modelo).

Juntos, ele escrevem canções que combinam letras românticas e despretensiosas com arranjos que passeiam por vários gêneros (samba, rock, funk, folk, bossa nova, jazz). Mas tudo muito bem diluído - e pop -, como se pode perceber em seus dois registros "oficiais".

Em 2009, lançaram o álbum Plano de Fuga pra Cima dos Outros e de Mim, marcado por faixas como "De Mão Dada", "Ballet da Centopeia" e "Potência" (esta com direito a clipe rolando na MTV). No ano passado, gravaram o EP Couves, com versões para temas de Sade, Des'ree, Raça Negra e Só Pra Contrariar.

Segue um resumo da conversa que tive com os dois.

Você passam a impressão de que não têm pressa de divulgar o trabalho do Letuce, de fazer sucesso. Tanto que ainda não são muito conhecidos fora do Rio. É isso mesmo?

Letícia - É, sim. Porque a música é uma das coisas mais importantes da minha vida, mas não é tudo. Não vivo para lançar discos e ser reconhecida. Que bom que as pessoas gostam da nossa música e a gente pode se apresentar para elas. Mas não vou fazer nada de maneira forçada.

Mas o segundo disco sai este ano...

Letícia - Sim! Inclusive estou fechando com o Lucas os últimos detalhes. Letras que ainda faltam terminar, pedacinhos de música... E a ideia, na verdade um sonho, é lançar também uma tiragem em vinil.

Com raras exceções, os artistas da geração independente atual são muito tímidos, inclusive nos shows. Já o Letuce destoa desse grupo. A Letícia canta "para fora" e tem uma presença de palco segura, bem-humorada. Isso vem da formação teatral?

Letícia - Vem. Mas, além de ser atriz, faço stand up comedy há muitos anos. Estou acostumada a me apresentar para gente bêbada em casa de humor. Então simplesmente não consigo fazer cara de diva, de cool, de misteriosa.

Lucas - Tocamos no Teatro Rival e logo depois do show duas moças fizeram um elogio que define muito bem Letuce. Elas disseram que o nosso show era muito "desmontado". Para algumas pessoas isso pode parecer pejorativo, coisa de hippie. Mas, para mim, não é. É uma prova de que, como a gente planeja pouco as nossas apresentações, a novidade pode aparecer a qualquer momento.

Letícia - Não quero julgar o trabalho dos outros. Mas existe um tipo de timidez meio boba, forçada. Só que a gente percebe quando a coisa é sincera. Mesmo quando a pessoa canta miudinho. Eu mesma fico tímida e nervosa antes de tocar. Mas, chega na hora, alguma coisa desperta em mim e eu vou embora!

A Letícia é da Tijuca e o Lucas veio de Petrópolis. Isso talvez explique o desembaraço e o despojamento da banda, em contraponto à postura cool de outros artistas cariocas. Vocês acreditam que tiveram uma formação diferente de quem cresceu na Zona Sul?

Letícia - Inspiração não é só música, é também o ambiente em que você vive. No meu colégio, na Tijuca, todos os meus amigos só ouviam pagode e funk. Eu já gostava de rock, mas era impossível não prestar atenção nessas coisas, que acabam ficando na nossa memória afetiva. Quem consegue se livrar do preconceito vai descobrir melodias e letras lindas no meio das músicas de pagode, sertanejo, etc.

Esses dias mesmo estava falando com o Lucas sobre o Luan Santana. Não me afeiçoei a "Meteoro", mas tem uma outra letra dele que eu adoro. Uma que diz: "Você deixou suas digitais em mim". Acho isso lindo! Pena que ainda tem muita gente que não se permite ter esse tipo momento. Seja porque tem medo de parecer esquisito, seja porque o tópico do dia do Twitter não é esse.

Todas as letras do Letuce são sobre amor, relacionamentos. Vocês conseguem definir qual a abordagem que fazem desses temas?

Letícia - Tem uma música do U2, "One", que eu sempre choro quando ouço. É aquela que diz: "Love is a Temple". Para mim, o amor é um templo mesmo. O amor me salvou. Antes de conhecer o Lucas eu era até meio mal-humorada. Mas ele veio e foi um presente na minha vida. Então eu acho que a minha forma de agradecer ao mundo por esse presente é escrever canções de amor. Mas sem pretensão, sem reposta para nada, sem querer apontar o que é certo. Não existe isso de "um nasceu para o outro". Cada um deu sorte de encontrar o outro, e de ser amado pelo outro.

"AMIGO SECRETO DE PÁSCOA É A NOVA SENSAÇÃO ENTRE BRASILEIROS E CHEGA A INTERNET"


Claro que é da série Releases Inesquecíveis.

O brasileiro já tem a cultura do amigo secreto, em que amigos e familiares trocam presentes no Natal como uma forma de união e amizade. A brincadeira foi para a Internet e hoje se tornou um sucesso ainda maior.

Mas agora não é apenas no Natal que as pessoas confraternizam dessa maneira: a Páscoa é mais uma data escolhida para este propósito. Por esse motivo, os criadores do XXXXX, que têm a maior audiência da Internet brasileira para a brincadeira de amigo secreto online, resolveram inaugurar o XXXXX.

(...) “O objetivo é fazer com que nossos membros se divirtam como sempre, que brinquem, confraternizem, reúnam-se ainda mais com as pessoas queridas e possam comprar seus chocolates e ovos de Páscoa sem sair de casa”, diz XXXXX, criador do XXXXX.

A data é um período ideal para a brincadeira e as pessoas não precisam esperar até o fim do ano para trocarem presentes. “Nada como uma nova reunião com quem a gente gosta para trocar chocolates. Esse novo tipo de amigo secreto tem tido uma ótima repercussão”, pontua XXXXX.

ENTREVISTA: EDUARDO DUSSEK


Um dos clássicos da minha infância faz minitemporada em Curitiba nesta semana. Bati um papo com ele para a FdL.

Começando com uma pergunta meio tola. Por que você passou a assinar ''Dussek'' em vez de "Dusek"?

Por dois motivos. Primeiro, porque a pronúncia do meu nome é ''Dussek'' mesmo, ninguém nunca acertou. E depois veio a numerologia. Mas deixa eu contar uma história.

Nos anos 90, minha casa ficou em obras durante seis meses. Foi um inferno, porque o meu escritório também funcionava lá. E o mestre de obras ficava me chamando o tempo todo: ''Seu Duzzzééék!''. Aquilo me irritava de um jeito que você não imagina!

Enquanto isso, minha produtora passava por problemas com o fisco. Paguei tudo e resolvi procurar uma numeróloga para mudar o nome da empresa. Ela perguntou se tinha outro nome relacionado com o meu trabalho que eu poderia mudar, e eu disse que achava ''Dussek'' melhor que ''Dusek''. Ela fez os cálculos e achou maravilhoso!

E essa sua ligação com Curitiba, como surgiu?


Meu ex-sócio é daí. Fui padrinho de casamento dele, padrinho da filha mais velha dele. É como se eu tivesse uma família em Curitiba, onde também fiz muito trabalhos, principalmente em empresas. Cheguei a manter uma casa aí por 15 anos. Primeiro, uma casa mesmo, no Cristo Rei. Depois, um apart hotel na João Gualberto.

Hoje se fala muito sobre a importância de o artista gerenciar a própria carreira. Mas você já faz isso há anos, não?

Sempre trabalhei com bons empresários. Mas também sempre gostei de ser dono do meu nariz. Não gosto de assumir o erro dos outros. E como atuo em várias áreas, preciso ter um escritório para centralizar tudo isso. Na verdade, minha primeira produção é de 1974. Ou seja: tenho bem mais do que os 30 anos de carreira "oficiais" que estou comemorando agora.

Apesar de tantos anos de trajetória, sua discografia não é muito extensa...

Isso é carma! Sou capricorniano, então tudo para mim é mais difícil de fazer. Enquanto o leonino faz três coisas ao mesmo tempo, eu faço uma. E que dá errado. Sou um "inadimplente astral", como canto no início do show. Mas pergunto "quanto custa" e vou à luta.

A que você atribui um certo sumiço da grande mídia nos anos 90, logo depois do boom que a sua carreira teve na década anterior?

Isso é normal para uma pessoa carmática, como eu. Mas sou um carmático esperto. Porque o carmático burro dá murro em ponta de faca. Eu, não. Se não tenho nada a dizer, fico quieto.

O que aconteceu é que tive uma crise criativa muito séria, que começou logo após o fracasso de um disco que lancei no início dos anos 90. Cheguei a renegar tudo que fiz. Achava que faltava uma unidade na minha carreira. As pessoas não sabiam dizer se eu era debochado ou romântico, ator ou compositor. Isso me impediu de evoluir.

Mas a culpa era minha, então tratei de correr atrás de uma resposta para o problema. Essa busca levou 10, 15 anos. Mas como nunca dependi da mídia, não sou um BBB, continuei trabalhando.

E como você encontrou essa "unidade"?

Descobri que a coisa ia além do campo estético. Era pessoal, espiritual. Resolvi ser um cara legal, honesto com si mesmo. E que não se submete ao poder econômico, apesar de adorar dinheiro! Sou assim mesmo, gozador e romântico ao mesmo tempo. Então agora lanço trabalhos diferenciados, de grife, onde coloco a minha personalidade.

Você mencionou o lado espiritual. Envolveu-se com alguma religião?

Várias, todas as que você possa imaginar. Já bati todos os tambores. Hoje em dia sou ligado ao budismo, que eu acho mais moderno, mais avançado. No budismo você não tem obrigação com o externo, você se observa internamente.

Só que eu não virei careta, santinho. Por outro lado, assumi essa prostituição artística que existe no Brasil. A puta tem que agradar o coronel? Então vou ser a melhor puta possível. Mas o coronel tem que ser poderoso!

Tem algum projeto de disco ou DVD para este ano?

Estou preparando três lançamentos. Um DVD, que talvez seja duplo, com os melhores momentos da minha carreira. E dois CDs. Um de marchinhas de Carnaval, porque esse negócio está bombando, e outro só de canções românticas. Porque o público jovem descobriu meu trabalho com a música "Aventura", que entrou na novela Ti-Ti-Ti. Eles nem conhecem meu lado irreverente.

Curte algum artista novo?

Gosto da Vanessa da Mata, do MV Bill. Até de Fiuk eu gosto. Como chama aquela banda que tem nome em inglês?

Restart. Mas eles, e o Fiuk, são considerados lixo pela classe média "pensante". O que pensa disso?

O Brasil tem um problema que me preocupa muito, que é a falta de cultura. E esse preconceito das elites é falta de cultura também. Porque o popular e o erudito andam juntos desde as civilizações antigas.

A discussão não deveria ser por gênero musical, e sim se o artista tem alma ou não. Vamos parar com esse negócio de querer transformar o Brasil na Áustria, de ficar bajulando quem vem de Nova York ou Paris. Paris é uma grande Tijuca, um suburbúbio com obras de arte.

Sua atuação no filme Federal foi bastante elogiada. Inclusive pelo ator americano que participou do longa, o Michael Madsen. Isso já se reverteu em novas propostas de trabalho no cinema?

O Michael realmente gostou muito de mim, queria me apresentar para o Tarantino. Disse para eu ficar na casa dele em Los Angeles. Só que eu tenho senso de realidade, né? Quase disse para ele: "Ok, Michael. Mas agora eu vou para casa, porque tem uma loucinha lá para lavar". De qualquer forma, esse trabalho foi mais uma sementinha plantada, mais uma porta aberta. Que venham os convites!

ATIVIDADES DESLOCADAS


Atividades deslocadas são ações de preenchimento, executadas em períodos de tensão.

(...) Reuniões sociais criam tensões que podem ser aliviadas pela presença de facilidades para atividades deslocadas. Como drinques para os que não têm sede e comida para os que estão sem fome.

Uma boa parte do comer e do beber sociais entram nesta categoria.


Extraído da obra de Desmond Morris.

ENTREVISTA: ODAIR JOSÉ


O cantor goiano de 62 anos se apresenta em Curitiba no sábado. Segue a versão mais bruta da entrevista que fiz com ele para a (outra) Folha.

Leio por aí que os jovens universitários formam a base do seu público atual. E a audiência mais popular, deixou de acompanhar você?

Eu continuo conhecido entre o público popular e de idade mais avançada. Mas o Odair José não é mais o foco deles. No momento, são os jovens que vão aos meus shows, e eu fico muito feliz com isso. Porque é o jovem que sai de casa, não o velho.

Digo isso porque sou velho, não sou de ir para lugar nenhum. Segunda-feira agora, em Recife (no evento Rec-Beat), 30 mil pessoas ficaram debaixo de chuva para me ver tocar. Então, para mim está muito bom desse jeito.

De onde vem esse interesse dos mais novos pelo seu trabalho?

Não acho uma explicação muito adequada para isso, mas estou chegando à conclusão de que fiz uma coisa que teve qualidade. E digo isso sem pretensão nenhuma, até porque não sou desse tipo. O engraçado é que esses jovens se interessam mais pelo que produzi nos meus primeiros cinco anos de carreira.

Mas quais elementos da sua música, especificamente, você acredita que chamam a atenção dos novos fãs?

Meu som, apesar de ser simples, tem uma cara meio pop. Dentro da minha capacidade, sempre tentei fazer música de acordo com o que acontecia no resto do mundo. Sempre me interessei por rock inglês, pop americano.

Quanto às letras, acho que os jovens gostam delas porque falam do dia-a-dia da rua. Afinal de contas, eu também era jovem naquela época, né? (ri) De qualquer forma, penso que esse público me procura e me aceita porque uma nova geração de músicos fala de mim, grava minhas músicas.

Também leio que agora você é aceito pelos intelectuais. Que virou cult de uns anos para cá. Como se a sua parceria com o Caetano, ainda no começo dos anos 70, não tivesse existido...

É engraçado isso. Agora mesmo, no começo de janeiro, saiu uma matéria no jornal O Globo em que a mulher dizia assim: "A vida coloca Odair José em seu devido lugar". Mas onde eu estava, que não estava no meu devido lugar? (ri) Nunca vi o meu trabalho não ter algum tipo de reconhecimento.

O que aconteceu é que, em um determinado momento, eu não fui tão competente, atento, focado. E daí surgiu um espaço. Mas reconheço que comecei a ver minha música de outra forma nos últimos tempos. Hoje, graças ao público jovem, estou redescobrindo meu próprio repertório. E subo no palco para tocar com uma satisfação enorme.

Além de ser um cronista urbano, você também fala muito do amor. O amor mudou muito desde o começo da sua carreira?

O amor não mudou em nada, continua a mesma coisa. O que mudou é que as pessoas estão mais abertas a determinadas expressões do amor. Não é mais importante, por exemplo, você assinar um papel para provar que ama outra pessoa. O mesmo acontece com o amor entre duas pessoas do mesmo sexo.

Ainda assim, existem coisas que continuam sendo jogadas para baixo do tapete na sociedade. Como o cara que no domingo vai à missa, almoça com a sogra e, mais tarde, sai escondido com a amante. E depois ainda recrimina o filho, o vizinho ou o funcionário que tem uma postura parecida. É a famosa hipocrisia.

Eu só não acredito que amor e sexo sejam duas coisas separadas. Um puxa o outro, estão atrelados. Esses dias, estava almoçando com a minha mulher num restaurante quando entrou uma senhora enorme, pesada, com o marido. Minha mulher até comentou que eles ainda deviam se amar muito. Mas eu já acho que, além do amor, devem existir outras coisas que podem manter duas pessoas juntas. E uma dessas coisas é o sexo.

Você está prestes a lançar um novo disco de inéditas, com produção do Zeca Baleiro e colaborações de gente como Chico César, Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown. Dá para adiantar o que vem por aí?

Há dois anos o Zeca me convida para fazer esse disco. Mas eu achava que não era necessário, até porque meu repertório é muito grande. Gravei mais de 400 músicas, 30 discos. Só aceitei agora porque realmente acredito que escrevi algumas músicas boas.

Como a faixa de abertura, "Aconteceu", em que falo dos relacionamentos que surgem por acaso, na rua. Aquela coisa sem conceito e preconceito, num hotel sujo, com bebida falsificada. Ou a música que dá título ao disco, "Praça Tiradentes", que tem um arranjo na linha do Bob Dylan mais antigo, com harmônica.

Acho que esse disco me leva de volta para o Odair José dos anos 70, o Odair José da reportagem musical, que é onde eu fui melhor.

O PRIMEIRO MINUTO DE UMA SERENIDADE REPENTINA


Era o primeiro minuto de uma serenidade repentina. Os seus movimentos, regulares e precisos, denotavam uma resolução enérgica. "Hoje mesmo!", murmurava.

(...) Os seus olhos inchados, o rosto emagrecido e lívido exprimiam uma energia selvagem. Não sabia para onde se dirigir, nem pensava nisto.

Sabia apenas que era preciso acabar com isto hoje mesmo, que não voltaria para casa sem isto, "porque não continuaria vivendo assim".


Fiódor Dostoiévski, em Crime e Castigo.

COMO PAQUERAR ESTRANGEIROS NO CARNAVAL


É a volta da série Releases Inesquecíveis.

O Brasil é um dos países que mais recebem turistas durante o período de Carnaval e, dentre eles, com certeza há muitos homens e mulheres à procura de brasileiros e brasileiras para curtir a festa a dois.

O problema é quando o idioma se torna o grande impasse para novos relacionamentos. Pensando nisso, a rede de franquias de escolas de inglês XXXXXXX resolveu preparar um guia simples de paquera em inglês para o Carnaval para ninguém passar vergonha e ainda deixar uma boa imagem aos turistas estrangeiros.

(...) O guia está dividido em três partes:

1º Fase – Para conhecer alguém
 Qual o seu nome? (What’s your name?)
Meu nome é...(My name is...)
 De onde você é?(Where are you from?)
Eu sou de... (I’m from...)
 Desde quando está no Brasil? (How long have you been here?)
Estou no Brasil desde...(I’m here since...)
 Seja bem vindo ao Brasil. (Be welcome to Brazil)
 Esta sozinho/a ou acompanhado? (Are you alone in here?)
(...)  Eu não falo muito bem o inglês, mas não posso perder a oportunidade de falar com você!(I cannot speak English very well but I can’t lose the opportunity to talk to you.
 Pode me passar seu email ou facebook? (Can I have your e-mail or facebook?)

OSCAR 2011 - UM RANKING PESSOAL


Só terminei de ver os dez indicados a melhor filme esta semana. Acho que vai dar O Discurso do Rei (o Shakespeare Apaixonado de 2011). Mas, em nome da novidade, torço por A Rede Social. Na real, não morro de amores por nenhum deles. Taí meu saldo final dessa safra bem mediana.

1. Inverno da Alma

2. Bravura Indômita

3. O Vencedor

4. Minhas Mães e Meu Pai

5. A Rede Social

6. O Discurso do Rei

7. A Origem

8. Cisne Negro

9. 127 Horas

10. Toy Story 3

MENINAS, EU VI


Consegui escrever um texto "isento" sobre o filme do Justin Bieber. Para a Folha, claro.

"Você não gosta de mim, mas sua filha gosta". Taí um verso adequado para ilustrar a ascensão relâmpago do astro teen Justin Bieber. Motivo de piada entre os mais crescidinhos, o garoto de 16 anos simplesmente não precisa da aprovação do público dito inteligente. Sua base de fãs é tão grande (e fiel), que ele pode até lançar um longa-metragem para o cinema e, ainda assim, fazer sucesso.

E é justamente essa a mais recente cartada de sua carreira (cujo prazo de validade ainda é uma incógnita). Em cartaz a partir de amanhã no Brasil, Justin Bieber – Never Say Never é um improvável documentário sobre seu histórico artístico de apenas dois anos – e um único disco de estúdio. Mas, por incrível que pareça, o filme não é uma bomba completa. Ao contrário, pode render um programa divertido em família.

Dirigido por Jon Chu (um especialista em vídeos de dança), o longa mescla números musicais, registros pessoais do menino e bastidores de sua turnê mundial. O ponto de partida é a contagem regressiva para o maior show da vidinha dele, no "templo" do showbiz americano, o Madison Square Garden. Faltando dez dias para a apresentação, agentes, assessores e parentes recontam a trajetória do pirralho.

Filho de pais adolescentes, que logo se separaram, Bieber foi criado numa cidade pequena no interior do Canadá. Cercado por músicos, amigos de sua mãe, teve acesso a instrumentos desde cedo, e aprendeu a tocar vários deles sozinho. Não demorou muito e começou a participar de concursos de talentos, interpretando canções dos mais variados gêneros com uma qualidade vocal indiscutível.

Mas foi graças a internet que seu conto de fadas realmente teve início. Para mostrar os dotes do filho aos parentes de outras cidades, Pattie Bieber passou a registrar suas performances e publicá-las no YouTube. Os vídeos chamaram a atenção de um produtor de Atlanta (EUA), que tinha contatos com nomes quentes da indústria como Usher e Jermaine Dupri. O resto é história.

É verdade que o dom natural de Bieber foi soterrado por camadas de superprodução pasteurizada. Nesse sentido, os números musicais (em 3D) de Never Say Never acabam sendo proibitivos para quem não é fã do garoto (ou seja, qualquer um com mais de 12 anos). O filme, no entanto, tem outro trunfo capaz de atrair a atenção dos mais velhos: descreve a anatomia de um fenômeno pop.

Entre uma canção e outra, o espectador acompanha , passo a passo, a construção do ídolo. Um processo árduo, trabalhoso, que incluiu uma maratona de ensaios, gravações, shows, visitas a emissoras de rádio, etc. A prova de que mesmo os artistas fabricados precisam ralar muito para chegar em algum lugar. E não interessa se o "produto" tem somente 16 anos – o que importa é ser profissional acima de tudo.

Tanto que a personalidade de Bieber é irrelevante para o documentário, cujo rol de entrevistas não traz um papo mais profundo com o astro. O que não deixa de ser curioso, pois sua carreira é um reality show em si. Ainda assim, Never Say Never cumpre bem seu papel. Se você se interessa pelo funcionamento do showbiz , e é pai ou mãe de meninas, vá ao cinema sem medo.

TRANSE


Direi toda a verdade, e outros continuarão o que comecei. Quero falar, e não escrever romances. Os romances nos impedem de compreender os sentimentos.

Quero dizer tantas coisas e não encontro palavras. Escrevo em transe, e esse transe se chama sabedoria. Todo homem é um ser racional. Não quero seres irracionais, quero todo o mundo em transe de sentimentos.

(...) Não quero ser curado. Não tenho medo de nada exceto da morte da sabedoria. Quero a morte da mente. A mente é estupidez.


Vaslav Nijinsky, em seu diário.

ENTREVISTA: ITAÉRCIO ROCHA (GARIBALDIS E SACIS)


Pra Fôia. A foto eu peguei por aí, mas é da Anaterra Viana.

FOLIA E RESPONSABILIDADES

Bloco pré-carnavalesco curitibano tem o desafio de administrar o próprio sucesso

Já está virando tradição. Durante os quatro domingos que antecedem o Carnaval, o desfile do bloco Garibaldis e Sacis atrai uma multidão de foliões e curiosos ao centro histórico de Curitiba. Uma movimentação iniciada em 1999, mas que tomou corpo para valer nos últimos três anos. Tanto que, agora, os organizadores da festa admitem ter um desafio pela frente: administrar o próprio sucesso.

"Estamos vivendo uma nova ordem", afirma o artista Itaércio Rocha, também conhecido na cidade por seu trabalho com o grupo Mundaréu. Um dos fundadores do bloco pré-carnavalesco, ele conta que a preparação para a temporada deste ano incluiu uma série de medidas burocráticas. Da transformação dos Garibaldis em "pessoa jurídica" ao estabelecimento de parcerias com órgãos públicos.

Outra providência nesse sentido foi pagar o Ecad (entidade que arrecada e distribui os direitos de obras musicais no Brasil). As duas partes chegaram a um acordo, reduziram custos, e o valor final ficou em cerca de R$ 1.600 para os quatro desfiles. Bem menos dos que os R$ 4 por folião que consta na tabela oficial - e, provavelmente, inviabilizaria a festa.

"Concordo que o compositor deve receber pelas suas canções. Eu mesmo gostaria, um dia, de receber pelas minhas", diz Itaércio, que ainda abre mão dos direitos da próprias marchinhas. Aliás, há quem aponte que o bloco vem tocando cada vez menos os temas autorais e priorizando os clássicos ("Cabeleira do Zezé", "Mamãe Eu Quero", "Maria Sapatão" e afins).

"Não é nada isso. A gente só está inserindo as canções da gente no meio das tradicionais. Do contrário, a festa não emplaca, não dá liga. Carnaval é isso, é criar conexões locais com músicas do mundo inteiro. O negócio é misturar Braguinha, Michael Jackson e (a cantora curitibana) Melina Mulazani", explica.

Em volta do carro de som, também se comenta sobre a seriedade de Itaércio na condução do desfile - como se o comandante do bloco fosse o que menos se divertisse. "Fico em função da plateia. Não estou lá de Ivete", brinca. "A gente almejou o sucesso, trabalhou por ele. Agora temos que resolver tudo isso", completa.

"Tudo isso" significa, entre outras atitudes, conscientizar os foliões sobre questões de segurança, organização e limpeza. E também interromper a farra para fazer agradecimentos, digamos, institucionais (citando órgãos como a Fundação Cultural, Diretran, secretarias do Meio Ambiente e do Turismo, etc.).

Mas essa "nova ordem" não pode prejudicar a espontaneidade da festa? Para Itaércio, os Garibaldis devem se preocupar em preservar dois elementos básicos: a alegria e o caráter comunitário. De resto, ele garante que não tem maiores planos para o futuro. "Meu desejo é que apareçam outros blocos, como já estão aparecendo. E que essa experiência estética, festiva e coletiva continue".

Batizado com esse nome por causa de seu itinerário original - entre o Saccy Bar e a Praça Garibaldi -, os Garibaldis e Sacis já chegaram à metade da temporada 2011. Ainda faltam dois desfiles: neste domingo e no dia 27. E, apesar de a organização pedir contribuições simbólicas (para pagar o Ecad), o evento é livre para quem quiser aparecer.

O PASSAGEIRO DA AGONIA


Indicado a seis Oscars, mas proibido para pessoas muito sensíveis. Esse é o apelo de 127 Horas, que chega por aqui depois de causar desmaios, vômitos e até um ataque epilético mundo afora. Tudo por causa de uma cena extremamente forte e realista, que obrigou o próprio diretor a pedir desculpas para o público após as primeiras exibições.

Estrelado pelo valorizado James Franco, o filme combina aventura, drama e suspense para narrar a história real do americano Aron Ralston. Em 2003, ele trabalhava como engenheiro e passava o tempo livre explorando montanhas e cânions. Até que, durante um passeio solitário, caiu numa fenda e ficou com o braço preso numa rocha.

Ralston lutou pela sobrevivência ao longo de quase cinco dias. Ferido e praticamente sem suprimentos, bebeu água da chuva e a própria urina. Um verdadeiro martírio, pontuado por lembranças do passado, devaneios e alguns momentos de autoironia – registrados por ele com uma câmera digital.

Sete anos depois, o cineasta Danny Boyle tenta transformar essa jornada numa experiência de imersão para o espectador. E consegue. São 95 minutos de pura tensão, “arejados” apenas pela conhecida agilidade de sua direção (marcada por câmeras de mão, cortes rápidos, uso esperto da trilha sonora).

Mais do que isso, é melhor não revelar. Afinal, a história de Ralston não é muito conhecida no Brasil, o que pode garantir uma surpresa ao fim da sessão. De qualquer forma, fica o aviso: se você não aguenta ver o sofrimento alheio (como eu), evite 127 Horas. Ou então prepare o estômago e feche os olhos quando o bicho pegar (como eu).

PS – Pirando depois da cabine, brinquei que o filme é uma mistura de A Praia, Na Natureza Selvagem, Bruxa de Blair e Jogos Mortais. Assiste e depois me diz se não faz sentido.